Você conhece o Janeiro Branco?

Marcelo Bosch Benetti dos Santos.

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A Campanha Janeiro Branco tem como objetivo colocar em evidência assuntos relacionados à saúde mental. Isto é, chamar a atenção da humanidade para questões relacionadas à saúde mental e emocional das pessoas, a fim de criar estratégias e políticas públicas destinadas à promoção da saúde mental nas sociedades.
O Janeiro Branco foi idealizado pelo psicólogo Leonardo Abrahão, em Uberlândia-MG, em janeiro de 2014, e atualmente encontra-se em sua 6ª edição. Ganhou progressivamente mais corpo e se espalhou por todo o Brasil e por países como Angola, Colômbia, Estados Unidos, Holanda, Japão e Portugal.
O nome escolhido para a campanha não foi por acaso. Segundo o próprio idealizador do movimento, janeiro é um mês culturalmente favorável para que as pessoas reflitam acerca de suas vidas, suas metas, seus desejos e planos para o ano vindouro. Já a cor branca, tal como uma folha ou uma tela em branco, representa o ponto de partida do qual as pessoas podem escrever e reescrever suas histórias e os sentidos de suas vidas.
A importância da campanha pode ser reforçada pelos números. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a partir de dados divulgados em 2017, são mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo que sofrem de depressão, o transtorno neuropsiquiátrico que mais gera incapacidades e malefícios à saúde.
O Brasil, também de acordo com a OMS (2017), apresentou estimativas alarmantes: foi considerado o 5º país do mundo com o maior número de pessoas com depressão, atingindo 5,8% de sua população, e o 1º em transtornos de ansiedade, afetando 9,3% da população.
No dia 20 de setembro de 2018, de acordo com boletim epidemiológico divulgado pelo Ministério da Saúde, o Brasil registrou 11.433 casos de suicídio no ano de 2016, o equivalente a 31 casos por dia.
Quando o assunto é preconceito e violência, o Brasil também se destaca. De acordo com um levantamento da ONG Grupo Gay da Bahia, de 2017, o Brasil é o país que mais mata pessoas LGBTs do mundo. O Atlas da Violência 2018, resultado da parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou que entre os anos de 2006 e 2016, a taxa de homicídios de negros cresceu 23,8%, enquanto que a da população branca recuou 6,8%.
Mas afinal, o que a saúde mental das pessoas tem a ver com tudo isso?
Muito, já que…
Saúde mental é o advento da civilização contra a barbárie e a violência.
Saúde mental é querer uma sociedade menos competitiva, hostil e excludente por uma sociedade mais solidária e inclusiva.
Saúde mental é ter uma sociedade democrática, em que todas as pessoas possam ser escutadas e respeitadas em suas singularidades e subjetividades.
Saúde mental é combater persistentemente todos os tipos de preconceitos presentes nas sociedades e no interior de cada um de nós.
Saúde mental é sentir-se amado(a), acolhido(a) e pertencente a um grupo social ou familiar.
Saúde mental é falar sobre a qualidade das relações que estabelecemos com outras pessoas, incluindo o modo como cuidamos de nossas emoções e das emoções do outro.
Saúde mental é dirimir conflitos interpessoais e conflitos internos.
Saúde mental diz respeito a nossos pensamentos, nossas emoções, nossos sentimentos e nossas atitudes.
Saúde mental é autoconhecimento.
Ou seja, o quanto somos capazes de nomear aquilo que sentimentos.
O quanto sustentamos ou renunciamos nossos desejos e sonhos.
O quanto somos capazes de atribuir sentido para nossos traumas e experiências dolorosas.
O quanto temos conhecimento das motivações conscientes e inconscientes de nosso comportamento, bem como das contingências que o determinam.
O quanto reconhecemos nossos limites e dificuldades, para que possamos melhor enxergar nossas facilidades e potencialidades.
O quanto sabemos a respeito de nossa autoestima, autoconfiança, autoimagem e de nosso autoconceito.
Saúde mental é ter humildade, gratidão e praticar gentileza.
Saúde mental é empatia.
Saúde mental é assertividade.
Saúde mental é respeitar as regras e saber negociá-las.
Saúde mental é oportunizar condições materiais e culturais às pessoas para que elas possam encontrar formas apropriadas de expressão dos afetos e de obtenção de prazer, como através da arte, do conhecimento, do trabalho, do esporte e do lazer.
Saúde mental é poder ter uma rede de apoio e acesso aos tratamentos e às terapêuticas psicológicas e psiquiátricas apropriadas para os sofrimentos humanos.
Saúde mental, enfim, é cuidar da vida.
Pratique saúde mental. A sua vida e as das outras pessoas agradecem..

(Colaboração de Marcelo Bosch Benetti dos Santos, especialista em psicologia clínica, mestre em psicologia clínica e pós-graduação em neuropsicologia).

(…)

Publicado na edição 10355, de 26, 27 e 28 de janeiro de 2019.