A eterna companheira

Wagner Zaparoli

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Se a Lua está deixando de ser uma inspiração aos enamorados, poetas e músicos, para os cientistas ela continua carregada de mistérios e sedução, mesmo com a propalada “conquista” realizada pelo homem.
Há alguns anos o ex-presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, aventou a possibilidade de missões tripuladas voltarem a visitar aquele satélite. A notícia no entanto, não causou grande frenesi aos cientistas como aquele ocorrido na década de 60 no auge da Guerra Fria. Mas não deixou de empolgar alguns pesquisadores lunares que ainda vêem perguntas sem respostas sobre a suposta filha da Terra.

O contexto
Logo após o final da Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos e União Soviética, até então aliados incondicionais na luta contra o regime nazista, empreenderam uma disputa política e econômica que polarizou o cenário mundial, fato nunca antes visto em tais dimensões.
Como não poderia deixar de ser, ambas as potências lutavam por ter diferenciais que somariam pontos para a definição da supremacia global. A tecnologia era moeda corrente nesta disputa e a energia nuclear foi sem dúvida um elemento chave, embora houvesse equilíbrio relativo entre as potências. Talvez esse equilíbrio tenha sido o fator chave da manutenção da paz na época.
A conquista do espaço foi outro elemento de disputa entre as duas nações, tendo a União Soviética largado na frente quando colocou em órbita terrestre o primeiro satélite espacial (Sputinik, 1957) e o primeiro ser humano (Gagarin, 1961).

A Conquista da Lua
Mas foram os Estados Unidos que chegaram primeiro à Lua e lá fincaram a sua bandeira tricolor estrelada em 1969. Coube a Neil Armstrong da Apollo 11 pisar o solo cinzento e empoeirado do nosso satélite pela primeira vez. Antes dele a Apollo 8, a Apollo 9 e a Apollo 10 já haviam orbitado a Lua; depois dele, outras cinco missões também pisaram a Lua e lá fizeram inúmeras pesquisas e experiências.
O resultado das missões trouxe informações valiosas aos cientistas, inclusive ajudou a formular a teoria da criação da Lua. A mais aceita atualmente é de que um corpo celeste do tamanho aproximado de Marte chocou-se contra a primitiva Terra, jogando um grande volume de poeira e vapor para o espaço. Essa poeira se aglutinou rapidamente formando a Lua, como a conhecemos hoje.

A presença virtual
Galileu Galilei talvez tenha sido o primeiro cientista a observar a Lua de forma sistemática e descobrir que sua superfície não era lisa como pensavam os escolásticos aristotélicos. Essa observação marcou o início da relação entre o homem e os astros celestes, embora tal relação já existisse, mas de uma forma bem metafísica e romântica.
O homem tecnológico, quatro séculos depois de Galileu, alcançou a Lua e pôs os seus pés nela; e foi além, colocando suas naves de exploração e instrumentos para monitorá-la.
Nos anos 1990 duas naves americanas não tripuladas, a Clementine (1994) e a Lunar Prospector (1998), estiveram visitando a Lua. Não só contextualizaram as descobertas feitas pelas missões Apollo, mas forneceram novas informações aos cientistas, como mapas globais da topografia, composição físico-química da superfície, variações gravitacionais e anomalias magnéticas da Lua. Também forneceram uma informação que causou grande alvoroço no meio científico que foi a descoberta de gelo, tanto no pólo sul como no pólo norte lunar. Alvoroço porque ‘gelo’ leva à ‘água’, sinônimo de ‘vida’.

Os mistérios que permanecem
Embora o homem tenha estreitado as suas relações com a Lua, principalmente no século 20, algumas dúvidas persistem. Uma delas refere-se ao bombardeio violento que a Lua sofreu há cerca de 4 bilhões de anos (supõe-se que a Lua tenha a idade de 4.5 bilhões de anos) por corpos celestes vindos do espaço. Provavelmente a Terra também tenha sofrido o mesmo bombardeio, mas os vestígios desapareceram pela ação geológica em sua superfície. Na Lua, tal ação geológica não existe e todos os traços ainda estão intactos como há 4 bilhões de anos, observável com um simples binóculo amador. Saber como esse evento ocorreu e descobrir os seus motivos poderiam levar os cientistas a entender como planetas como Mercúrio, Marte e Terra se formaram.
Agora, saber se o homem vai realmente voltar a pisar a Lua, por ora talvez seja ainda o maior dos mistérios, embora empresários como Jeff Bezos e Elon Musk, criadores de empresas aeroespaciais como a Blue Origin e a Space-X tenham em seu imaginário fazer dela um grande parque de diversões para turistas espaciais.
É esperar para conferir.

 

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10520, de 23 a 25 de setembro de 2020.