A importância da ciência aplicada

Wagner Zaparoli

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Durante muito tempo a luz da ciência conseguiu iluminar umas poucas mente sãs, as quais coincidentemente já possuíam um brilho próprio. A grande parcela da humanidade sempre se viu na completa escuridão da ignorância, bombardeada latentemente por dogmas e crendices que ao invés da liberdade do conhecimento, aumentavam o fosso da perdição.

Não era para menos, pois embora os grandes filósofos da natureza como Galileu, Kepler, Newton e até Einstein, tenham construído os pilares da ciência moderna, jamais conseguiram popularizar as suas teorias devidamente.

Mesmo hoje, passados tantos anos, quem de fato sabe para que servem as três leis definidas por Kepler sobre o movimento dos planetas? Ou ainda, qual a importância da teoria da gravitação universal formulada por Newton? E o que significa a mais famosa de todas as equações da física, E=MC2, escrita pelo físico mais famoso de todos os tempos, Albert Einstein?

Poucos se dão conta de que não fosse pelas teorias desses pioneiros, James Watt não teria aprimorado a máquina a vapor em 1765, o carro-chefe da revolução industrial; Graham Bell não teria inventado o telefone em 1876; Thomas Edison não teria criado a lâmpada elétrica; Guglielmo Marconi não teria inventado o telégrafo sem fio; e Santos-Dumont não teria realizado o primeiro vôo em 1906. Isso para citar apenas algumas das grandes invenções. Agora, imagine se ficarmos sem a televisão, a geladeira, o ferro de passar roupas, a máquina de lavar ou o carro. Nem vou citar a ausência da tecnologia do século XX ou XXI, como o computador e o celular. Não nos sentiríamos nus? Certamente voltaríamos à idade da pedra e teríamos que reaprender a fazer o fogo através da fricção de gravetos. Nada mal.

Os inventores e as invenções

Ao final da idade das trevas a Europa começou a sofrer algumas transformações. Complexos moinhos emergiam nas margens dos rios, relógios sofisticados completavam a arquitetura das grandes catedrais, enormes embarcações mecanizadas cortavam as calmas ou caudalosas águas dos rios, tudo sendo criado num ritmo frenético e longe dos centros acadêmicos.

Mas não demorou muito para os filósofos naturais perceberem a importância desse desenvolvimento e rapidamente o denominaram de “experimentação” e o incorporaram como parte da metodologia para o desenvolvimento da ciência.

Tanto que hoje as teorias vencedoras de Prêmios Nobel só o são quando confirmadas empiricamente. Stephen Hawking que o diga, embora considerado um dos maiores físicos teóricos de todos os tempos, esteve na fila do Nobel por muitos anos na esperança de que suas teorias sobre os buracos negros pudessem ser comprovadas na prática, fato que não ocorreu em vida.

O interessante dessa fase de invenções, da qual emergiu a revolução industrial, é que ela primeiro nasceu das mãos dos engenheiros envolvidos em problemas práticos para depois ser concebida teoricamente. Para se ter uma idéia, vejam o exemplo das primeiras máquinas térmicas que retiravam água do interior das minas de carvão. Foram concebidas por mecânicos a partir da necessidade da exploração das minas por volta de 1712. Somente um século mais tarde é que as primeiras teorias da termodinâmica, que explicavam o funcionamento dessas máquinas, começaram a surgir.

Das máquinas a vapor das minas para a fabricação de locomotivas, navios e carros foi um pulo bem rápido realizado por um ciclo que se caracterizava pela necessidade frente a um problema, pela construção experimental da solução e por fim, pelo registro da metodologia utilizada para fins documentacionais.

Esse ciclo foi a base inventiva da revolução industrial acontecida principalmente na Inglaterra e só foi quebrado com o surgimento da eletricidade, esta sim, nascida em berços teóricos para posteriormente dominar todos os caminhos da tecnologia. Hoje ela marca as raízes de nossa existência de uma forma tão profunda que seria impossível viver à sua margem, assim como todas as invenções ou criações relacionadas à manutenção da sustentabilidade da vida, principalmente àquelas com foco na saúde humana.

Em 2020 e 2021 pudemos finalmente enxergar o fato de que os cientistas, suas ciências e respectivas tecnologias merecem o nosso maior respeito e reconhecimento. Nesses dois anos as vacinas ajudaram sobremaneira a salvar milhões de vidas. E isso não tem preço.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação). 

Publicado na edição 10.658, de quarta, quinta e sexta-feira, de 6,7 e 8 de abril de 2022.