A jornada humana pelos caminhos da ciência

Wagner Zaparoli

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Há milhares de anos o homem nômade, com sua inerente curiosidade, conquistou os vários continentes da Terra utilizando os próprios pés em uma viagem longa e perene. Há centenas de anos o homem navegador, com sua real necessidade, conquistou os mares da Terra utilizando magníficas embarcações em uma viagem cheia de temores. Há dezenas de anos o homem espacial, tanto com sua curiosidade quanto com sua real necessidade, conquistou o espaço sideral utilizando imponentes foguetes em uma viagem de grandes desafios.
Não há dúvidas de que a necessidade, mas principalmente a curiosidade, forjaram a mola propulsora para que Homo sapiens se mantivesse em movimento, atrevendo-se por caminhos desconhecidos. Hoje pode-se dizer que as terras mais longínquas e os mares mais profundos estão sob seu domínio. Do Universo não podemos dizer o mesmo.
Embora a Lua e a órbita da Terra sejam figurinhas carimbadas pela presença humana e tenham feito parte de uma história que demonstra que a persistência pode vencer barreiras ditas intransponíveis, falta muito ainda para uma nave tripulada cruzar o espaço que liga a Terra a outros planetas do nosso sistema solar numa viagem longa e sem escalas. A estrutura psicológica e principalmente a estrutura física do homem foram criadas para o ambiente terrestre e certamente vai levar muito tempo, se depender da natureza, para que ele tenha a capacidade de fazer do universo aberto o seu lar.
Podemos citar alguns problemas como obstáculos a essa conquista: irregularidade do sono, perda muscular e óssea, falência do sistema imunológico e efeitos da exposição à radiação cósmica, entre outros.

Um problema
Se a natureza levou milhões de anos para transformar um ser unicelular em um complexo de inteligência que é o homem, provavelmente levará mais alguns milhões para transformá-lo em um verdadeiro ET que sobreviva às viagens espaciais. Mas a ciência e a tecnologia andam a passos largos dando uma esperança às futuras gerações. Senão, vejamos.
Há alguns anos a revista americana Science publicou a notícia sobre um estudo em que pesquisadores da Universidade de Washington e do Instituto Fred Hutchinson de Pesquisa de Câncer conseguiram colocar um rato em estado de semi-hibernação através do uso de gás sulfídrico (aquele que tem o desagradável odor de ovo podre). O rato foi colocado em uma câmera cheia de gás por alguns minutos, tempo suficiente para fazê-lo perder a consciência e literalmente desacelerar o seu organismo – seus 120 batimentos por minuto caíram para menos de 10, sua temperatura corporal baixou de 37ºC para 11ºC e o seu metabolismo diminuiu em 90%. Para trazê-lo à normalidade bastou colocá-lo para tomar ar fresco por algumas horas, fato que ocorreu sem efeitos colaterais.

Uma solução
Com o sucesso da pesquisa, ato contínuo seria estendê-la aos humanos para entender os impactos. Logo de cara poderíamos vislumbrar dois aspectos positivos em relação às viagens espaciais: o primeiro faz referência ao problema de armazenamento de alimentos em naves espaciais, mitigado pelo baixo metabolismo do organismo que leva automaticamente a um menor consumo e, consequentemente, à redução da área de estoque dentro das naves atuais; o segundo diz respeito à situação psicológica dos astronautas, dado que em viagens longas eles precisam ser entretidos. Isso poderia ser evitado caso estivessem em sono profundo, por exemplo, como ocorreu com o ratinho na pesquisa americana e exatamente como mostram alguns filmes de ficção científica (lembram-se de 2001 – Uma Odisséia no Espaço?).

Um pingo de esperança
A beleza da ciência, entre outras, é que às vezes seus resultados vão além daqueles imaginados pelos próprios cientistas. Reflitamos um pouco sobre o exemplo dessa pesquisa. O metabolismo diminuto obtido pelos pesquisadores poderia ser útil aos tratamentos atuais contra o câncer, pois quando esses tratamentos ocorrem, inúmeras células sadias morrem bem antes das células cancerígenas. Induzindo a hibernação metabólica, a situação poderia se equilibrar. Não é fantástico?
Outro exemplo está relacionado à dependência do oxigênio. Diminuindo o metabolismo, diminui-se automaticamente o consumo de oxigênio, fator essencial para pacientes em estado crítico que estão longe dos cuidados médicos.
Claro, prezado leitor, apesar do fato de uma pesquisa com ratos representar sensível avanço científico não significa necessariamente que a situação humana está resolvida. Existe um longo caminho para transformá-la em resultados aplicáveis, mas certamente haverá também mais uma luz de esperança na sustentabilidade da grande jornada de todos nós. Olhemos então para frente!

 

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10535, de 21 a 24 de novembro de 2020.