A luz de um gênio

Wagner Zaparoli

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Romper com tradições profundamente arraigadas no ceio das almas e mentes científicas parece ser característica comum dos gênios que viveram no passado. Aconteceu com o matemático polonês Nicolau Copérnico, aconteceu com o matemático italiano Galileu Galilei, com o evolucionista inglês Charles Darwin, e até com o físico alemão Albert Einstein.
Entre a existência de Galileu e a de Einstein talvez tenha vivido o maior de todos os gênios, Isaac Newton, que não fugiu à regra, criando teorias que foram enfaticamente combatidas pelos seus pares da ciência.

Annus mirabilis
Se 1905 foi um ano maravilhoso para Albert Einstein e milagroso para a física, já que foi neste ano que ele publicou suas mais importantes teorias, poderíamos considerar os anos de 1665 e 1666 como os anos dos milagres de Newton.
Isaac Newton que nascera em 1642 em Woolsthorpe, Inglaterra, mal completara 19 anos e se tornara subsizar (espécie de serviçal para arrumar mesas, quartos, etc.) no Trinity College de Cambridge. A história não é clara em afirmar se ele realmente precisou exercer o papel de serviçal para poder subsidiar os estudos, mas é certo que foi em Cambridge que ele desenvolveu e publicou suas teorias que viriam de vez, abrir as portas da física moderna. Com um contraponto, no entanto. Depois de permanecer em Cambridge por quatro anos, a região que já vivia uma instabilidade política, foi arrasada pela peste negra, obrigando Newton a refugiar-se em sua terra natal. Lá ele se viu completamente isolado, cercado por pessoas que se preocupavam com colheitas e gado. Aliás, foi nessa época que o mito newtoniano da queda da maçã teria acontecido (embora não tenha passado de pura alegoria da história).
Newton, então na plenitude de sua juventude, se pôs a trabalhar naqueles aparentemente insípidos meses realizando descobertas primordiais em três áreas distintas: matemática, óptica e teoria da gravitação.
Mais de 50 anos depois, no auge da maturidade, Newton relembraria essa fase escrevendo as seguintes palavras: “No início do ano de 1665, eu encontrava o Método da aproximação das séries e a Regra para reduzir a potência de um binômio qualquer a tais séries. Em maio do mesmo ano, eu achava o Método das tangentes […] e em novembro eu tinha o Método direto das fluxões; no ano seguinte, em janeiro, a teoria das cores e em maio eu possuía o Método inverso das fluxões. E no mesmo ano eu começava a pensar na gravidade que se estende à órbita da Lua […]. Tudo isso aconteceu durante aqueles dois anos de peste, de 1665 e 1666, enquanto eu estava na flor da idade criativa e ocupado com a Matemática e com a Filosofia como jamais voltaria a ficar”.

As refutações
Principalmente devido a seu artigo de 1672 em que apresentou a teoria sobre o comportamento da luz e das cores, Newton travou um dos confrontos mais interessantes da história da ciência. Conta-nos ela que os protagonistas da controvérsia tinham de certa maneira, razão, ao que Newton nunca admitiu. Diziam eles que “um sábio desconhecido de Cambridge tenha a pretensão de refutar, com base numa única experiência, uma teoria admitida para substituí-la por uma nova, não podia parecer outra coisa senão uma provocação”.
Fiéis aos ensinamentos de Bacon, consideravam que antes de concluir qualquer trabalho sobre a ciência natural, seria necessário realizar várias experiências. Isso fazia parte do código deontológico do bom e virtuoso filósofo da natureza.
Mas, embora cometessem equívocos, é certo que as teorias de Newton foram sublimes e fundamentais para a física moderna. Talvez sem o seu estímulo, muitos outros cientistas que viriam posteriormente a se tornar ícones da história científica não o tivessem conseguido, como o próprio Albert Einstein. É importante lembrar que a ciência e a tecnologia só chegaram ao nível de evolução atual devido ao trabalho paulatino de cada ser, em cada época, no transcorrer da existência humana.

A cadeira lucasiana
Isaac Newton ocupou em Cambridge, a cadeira lucasiana – cadeira de professor de matemática mais célebre do mundo. Antes dele somente havia ocupado a cadeira o matemático Isaac Barrow (de 1630 a 1677) e depois dele, matemáticos da lápide de Edward Waring, Charles Babbage, George Stokes e Paul Dirac. Mais atualmente quem ocupou a cadeira foi o famosíssimo astrofísico teórico Stephen Hawking, que nos deixou em 2018.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10485, de 13 a 15 de maio de 2020.