A nova e a velha pandemia

Wagner Zaparoli

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A humanidade já conviveu com cenários devastadores ao longo de sua existência. Não nos custa lembrar da peste negra, que, saindo da Ásia Oriental via rota da seda, chegou à Europa por volta de 1347 e ali fez um estrago inimaginável. Só para termos uma noção de quão profundo foi o problema, a doença pode ter matado entre 75 a 200 milhões de pessoas no mundo. Na Europa estima-se que de 30% a 60% da população simplesmente sucumbiu perante o grande mal. Muitas das regiões afetadas levaram mais de 200 anos para se recuperar sob o ponto de vista social e econômico.
Não nos esqueçamos também da mãe de todas as epidemias, a gripe espanhola, que varreu boa parte do mundo pelo espalhamento do vírus da influenza ao final de 1918, infectando cerca de 500 milhões de pessoas e matando quase cinco dezenas de milhões delas.
A lista de males não é pequena. Remonta séculos antes da era cristã – como a Praga de Atenas – seguida por várias outras epidemias como a Praga Antonina, a Praga de Cipriano, a Praga Romana e a epidemia de varíola japonesa, só para citar algumas.
Ao longo da Idade Média, Moderna e Contemporânea vivemos mais de uma centena de grandes eventos desastrosos para a humanidade sob o viés da saúde pública. Se o leitor quiser conferir a lista, acesse o link https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_epidemias.

A nova pandemia
A Covid-19, doença provocada pelo SARS-CoV-2, atropelou o mundo vindo da China pelas rotas aeronáuticas a partir do final de 2019. Sem prévio aviso e em questão de poucos meses, grande parte da população mundial se viu forçada a adotar um novo modo de viver para poder sobreviver aos impactos fulminantes da doença. As quarentenas, o uso de máscaras, a higienização e proteção das mãos e dos pertences e o cuidado com a circulação do ar, entre outros, foram as medidas mais propaladas e adotadas pela população em geral para combater minimamente o espalhamento da doença, dado que ainda não há uma bala de prata que o interrompa definitivamente. Mesmo quando as vacinas estiverem maduras suficientemente para serem aplicadas, o processo de blindagem será gradual, podendo levar semanas e até meses para que boa parte das pessoas seja de fato imunizada.
Mas, as vacinas virão! Atualmente existem ao menos algumas dezenas de equipes de pesquisadores espalhadas pelo mundo trabalhando árdua e incansavelmente na obtenção de uma vacina que possa combater o coronavírus. Já não é uma questão de esperança ou fé, como vivia a humanidade na Idade Média, mas sim da certeza de que a ciência e os cientistas vão fazer a diferença. Mas, não deixemos de ter a esperança e a fé.

A velha pandemia
Enquanto os olhos e ouvidos do mundo estão literalmente focados na nova epidemia do corona vírus, como diz um antigo ditado, a velha pandemia vai matando pelas bordas. E infelizmente poucos percebem.
De acordo com o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o tabagismo é responsável por mais de oito milhões de mortes anuais no mundo, das quais, quase 90% referem-se a fumantes ativos e pouco mais de 10% a fumantes passivos. Só no Brasil morrem 157 mil pessoas por ano. Não bastasse o custo das perdas humanas, o país arca com um custo anual em saúde pública de cerca de 57 bilhões de reais contra uma receita em impostos recolhidos dessa indústria, na ordem de 13 bilhões de reais. E a despeito da forte legislação vigente, ainda contamos com 20 milhões de fumantes no país.
O tabagismo é considerado uma doença epidêmica decorrente da dependência da nicotina e fator causal de aproximadamente outras 50 doenças incapacitantes e fatais, como doenças respiratórias crônicas, cardiovasculares e câncer. A nicotina encontrada no cigarro é classificada com uma substância psicoativa e trabalha estimulando o sistema nervoso central que está vinculado à motivação, sexualidade, prazer e recompensa. Poucos segundos depois de uma tragada, essa substância atinge o sistema de recompensa estimulando-o a liberar neurotransmissores e produzindo um reforçamento positivo com a necessidade de repetição.
Desistir do cigarro não é tarefa fácil. Aqueles que conseguem poderiam até serem considerados verdadeiros heróis. O caminho mais comum é seguir um tratamento médico que dê o adequado suporte ao paciente ao longo da difícil, mas não impossível jornada para a plena saúde. E se o leitor, fumante ou não, mas sempre iluminado, tiver interesse no assunto, sugiro a leitura do Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo, pelo link https://www.inca.gov.br/sites/ufu.sti.inca.local/files//media/document//protocolo-clinico-e-diretrizes-terapeuticas-do-tabagismo.pdf.
Que tenhamos todos nós uma vida longa e saudável!

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10527, de 21 a 23 de outubro de 2020.