Agronegócio, diplomacia e estratégia

José Mário Neves David

0
198

O agronegócio brasileiro é, hoje, um campeão mundial. Estamos, nós brasileiros, entre os líderes mundiais em produção e exportação de soja, laranja, cana-de-açúcar, milho, fumo, carne bovina, algodão, carne de frango, café e carne suína, para mencionar apenas algumas culturas e proteínas de origem animal.
Não é exagero algum afirmar que, hoje, o Brasil é, de fato, o “celeiro do mundo”, fornecendo comida para bilhões de pessoas ao redor do globo e garantindo a segurança alimentar e, em grande medida, energética no planeta. Essa posição, contudo, não nos confere apenas retornos financeiros, saldo positivo na balança comercial e orgulho, mas também um importante ativo no delicado e desafiador tabuleiro geopolítico mundial: o soft power decorrente da condição de fornecedor mundial estratégico de alimentos e matérias-primas ao mundo.
Condições como o extenso território (e amplamente preservado, embora se alardeie o contrário), solo fértil e clima propenso à produção quase ininterrupta ao longo dos 365 dias do ano, somadas ao investimento cada vez maior em tecnologia na produção, preservação dos biomas e pesquisa e desenvolvimento de ponta, colocam o Brasil como um gigante do agronegócio mundial, falando de igual para igual com países em estágio de desenvolvimento mais avançado que o nosso ou com poderio militar mais elevado. Nossa força está no essencial: alimentamos o mundo, e ninguém vive sem alimento.
Nesse sentido, afora o enorme poder que Brasil possui em outras searas (substancial reserva de água doce, percentual de florestas preservadas sem igual no mundo, riqueza energética renovável, dentre outras questões), é fato que um agronegócio forte e pujante confere ao País poder e importância no cenário internacional, ainda que não estejamos entre as maiores forças militares e nucleares do planeta, garantindo-nos um assento permanente e relevante nos fóruns de negociações comerciais e geopolíticas.
Assim, quanto mais mercados conquistarmos com nossa produção, não apenas ficaremos mais ricos enquanto País como, também, estaremos cada vez mais poderosos e estratégicos para as mais diversas nações do mundo, independentemente de ideologia ou dogma, afinal, todo mundo precisa comer e, cada vez mais, usufruir de energia renovável. – e nesses quesitos, somos os melhores.
Observa-se, portanto, que hoje o agronegócio desempenha um importante papel não apenas para a balança comercial, geração de empregos, contas públicas e o PIB brasileiros, como também para a diplomacia do País, vez que temos em abundância, para vender, o que todo mundo precisa, sendo cada vez maior nossa relevância, nossa rede de contatos e nossos parceiros estratégicos e comerciais no tabuleiro da geopolítica mundial. Gozamos do privilégio de ser fundamentais, ao mesmo tempo, para Estados Unidos da América e China, países em rota de colisão, mas que, em comum, não podem se dar ao luxo de prescindir da produção brasileira de alimentos. Temos assento permanente na mesa de negociação com ambos, o que, no atual contexto, é um grande trunfo em termos comerciais e políticos.
Nesse contexto, é estratégico para o Brasil que haja uma política macroeconômica perene de fomento e proteção ao agronegócio, setor em que somos efetivamente bons, competitivos e que nos confere poder no cenário global, a fim de que essa importante credencial diplomática e geopolítica seja preservada e, mais ainda, incentivada, pois, caso contrário, seremos superados no futuro por aqueles que hoje dependem de nós.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado. jd@josedavid.net).

 

Publicado na edição nº 10510, de 15 a 18 de agosto de 2020.