

Durante muito tempo, bastava tocar uma música para o público reconhecer imediatamente uma novela. Algumas canções deixavam de pertencer aos artistas para ganhar novos donos: os personagens. Essa relação foi se perdendo com os anos. Em Quem Ama Cuida, novela das 9 escrita por Walcyr Carrasco e Claudia Souto, Amora Mautner comanda a direção artística e recupera essa tradição ao devolver à trilha sonora uma função que vai muito além de preencher o silêncio das cenas.
A própria diretora resume essa escolha ao afirmar que a música participa da narrativa e funciona como ferramenta dramática. É exatamente isso que a novela entrega. A trilha não entra por acaso. Ela comunica o que os personagens ainda não conseguem dizer.
O exemplo mais marcante está em Adriana, protagonista vivida por Letícia Colin. Sempre que Sexo, Violencia y Llantas, de Rosalía, invade a cena, a música parece continuar o diálogo interrompido da protagonista. Ela traduz dor, resistência e esperança, tornando impossível dissociar seus acordes da trajetória de Adriana e do romance com Pedro, mocinho interpretado por Chay Suede.
O mesmo acontece com Dora e André, respectivamente interpretados por Mariana Ximenes e Henrique Barreira. I Say a Little Prayer, na voz de Aretha Franklin, acompanha o nascimento de uma paixão proibida e traduz o sentimento que os personagens ainda tentam esconder. Antes mesmo do primeiro beijo, a música já revela o que seus olhares denunciam.
A abertura também sintetiza a proposta da novela. Pra Melhorar, interpretada por Marisa Monte, Seu Jorge e Flor, contrapõe a dureza da jornada de Adriana com mensagem de esperança, lembrando que seguir em frente também pode ser forma de resistência.
Amora compreende que trilha sonora não existe para agradar playlists, mas para fortalecer a dramaturgia. Quando uma música passa a ser lembrada por causa de um personagem, ela deixa de ser apenas canção. Vira memória afetiva. E poucas novelas conseguem fazer isso hoje com a precisão de Quem Ama Cuida e é este um dos maiores acertos da novela: fazer o público sentir antes mesmo de ouvir.
Publicado na edição 11.020, sábado a sexta-feira, 18 a 24 de julho de 2026 – Ano 102




