‘Barbie’ é um filme adulto e escancara como o universo hétero-masculino é cafona

Marcos Pitta

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Sucesso - Margot Robbie interpreta a boneca mais famosa do mundo no longa metragem que conquistou recorde de bilheteria mundial, em seu final de semana de estreia. (Reprodução/Internet)

Conquistando a liderança das bilheterias no mundo todo, ‘Barbie’ chegou aos cinemas causando diversas sensações no público. Somente no final de semana de estreia, o filme arrecadou US$ 155 milhões nos cinemas dos Estados Unidos e do Canadá, colocando Greta Gerwig no topo do ranking de uma estreia cinematográfica dirigida por uma mulher, seja em voo solo ou como co-diretora. ‘Barbie’ também é considerada a melhor estreia de 2023, superando os US$ 146,3 milhões de ‘Super Mario Bros’. Se analisar as bilheterias de todo o mundo, o montante arrecadado por ‘Barbie’ chega a US$ 337 milhões.

O filme da boneca mais famosa do mundo gerou grandes expectativas nos fãs e, logo de cara, já é preciso dizer que nem de longe é um longa-metragem infantil ou feito para as crianças. Na verdade, ‘Barbie’ é um filme bem adulto, para adultos ou para os adultos que foram crianças e tiveram uma Barbie como referência. Sim, ‘Barbie’ é para a criança da década de 80, 90 e dos anos 2000.

O início do filme é totalmente plastificado, com uma fotografia contrastada no rosa, marca consagrada da boneca e com tonalidades em amarelo claro e azul bebê que ajudam a reforçar tudo o que foi construído no universo da boneca. Este início ainda plastificado tem a missão de conquistar o público da sala de cinema, trazendo referências da infância, dos brinquedos que acompanhavam a boneca, como as carinhas com tobogã e piscina, o carro, o cachorro, a cozinha e também apresenta diversas outras Barbies, a enfermeira, a grávida, a médica… Quantas Barbies tivemos.

Não muito longe da introdução do filme, ainda no primeiro ato, o público conhece o principal conflito, a personagem principal, vivida brilhantemente por Margot Robbie, começa a ter uma crise existencial, após ter pensamentos que não condizem com o mundo perfeito e moldado da Barbielândia e precisa, então, ir até o mundo real descobrir o que acontece com quem brinca com bonecas lá, para assim, retomar sua vida.

Barbie, então, embarca ao lado do Ken, para o mundo real onde o ato dois do filme começa a ser desenvolvido. É ai que a história adulta começa, a parte cabeça do filme e a principal crítica social e feminina que o filme busca trazer com bastante clareza e necessidade.

De fato, a análise feminina assistindo um filme é infinitamente maior que a masculina. Afinal, ‘Barbie’ é feita por uma mulher, sobre uma figura feminina e para meninas/mulheres. Isto é indiscutível. A discussão sobre como esta boneca moldou uma sociedade é preciso em pleno 2023 e ver como homens lidam com esta informação, apresenta um constrangimento quase que total nas cadeiras da sala de cinema. As falas masculinas proferidas pelos personagens deste sexo no longa são absurdas e reais. Você não precisa ir muito longe à sua volta para comparar Ken e o dono das empresas que vendem a boneca. Você não precisa forçar a visão para enxergar a cumplicidade masculina e como ela, ao mesmo tempo, se desfalece rapidamente.

‘Barbie’ ensina muito, ensina a mulher, ensina o adulto, ensina a sociedade e é um filme necessário. ‘Barbie’ é tão interessante e incomoda a muitos conservadores homens, por justamente mostrar o quanto o universo homem-cis-hétero-normativo é brega, cafona e, para não dizer muito, frágil.

Publicado na edição 10.776, sábado a terça-feira, 29 a 31 de julho e 1º de agosto de 2023