Bebedouro em 1896: a vila que o café transformou em cidade

Bebedouro em 1896: a vila que o café transformou em cidade

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Capa e página dedicada a Bebedouro do Almanach para o ano de 1896, publicado pelo “O Estado de São Paulo”. Foto: http://bndigital.bn.gov.br/

A doação da primeira parte da área que constituiu o patrimônio urbano de Bebedouro em 3 de maio de 1884 pelo casal João Francisco da Silva e Ana Cezária Pimenta, tornou-se referência como a data oficial da sua fundação, em território então pertencente ao município de Jaboticabal.

Dez anos depois, em 19 de julho de 1894, com apenas dois anos na condição de distrito de paz, ocorreria a emancipação, em decorrência da criação do município de Bebedouro. Na ocasião, a localidade era categorizada como um povoado, situação alterada pela Lei Municipal de 3 de janeiro de 1895, que a elevou à condição de Vila.

Naquele contexto de final do século XIX, Bebedouro passava por um período de notável crescimento, situação que pode ser observada por meio dos dados publicados no “Almanach d’ O Estado de São Paulo”, referente ao ano de 1896.

A população total do município era de cerca de 10 mil habitantes, porém apenas 2 mil eram moradores da Vila, enquanto a maioria, cerca de 80%, vivia na zona rural. O número de eleitores se restringia a apenas 300, tendo em vista que de acordo com a Constituição em vigor, somente os homens maiores de 21 anos e alfabetizados tinham direito à participação política.

O centro do poder público era a Câmara Municipal, então formada pelo presidente, Abilio Manoel, e, diferente do que indicava o Almanach, havia mais seis vereadores: Alfredo Moreira, Antônio da Silveira Toledo, Antônio Gonçalves Vallim, Eduardo da Silva Pereira, Francisco Pedro de Carvalho e Manoel Fraguas Ogando, sendo este escolhido pelos pares para ocupar o cargo de intendente (correspondia ao atual prefeito).

O orçamento municipal era bastante reduzido, enquanto a estrutura pública era composta por apenas um edifício, onde estava instalada a Câmara, e somente quatro funcionários municipais.

Existiam na cidade cerca de 500 imóveis, incluindo residências e estabelecimentos comerciais, geralmente de arquitetura rústica, considerando a carência de materiais para construção. Havia apenas vinte ruas, de pequena extensão, todas de chão batido, sem calçamento, e oito largos e praças, ainda sem ajardinamento.

A iluminação da Vila era bastante precária, com lampiões a querosene, sendo que no ano seguinte seriam instalados lampiões de gás e em 1911 chegaria a energia elétrica. Ainda não havia água encanada ou telefonia, serviços públicos que seriam disponibilizados somente na primeira década do século seguinte.

No campo religioso, o predomínio do catolicismo era notório, existindo duas pequenas capelas: a dedicada à São Sebastião, na atual praça Nove de Julho, e a de São João Batista, no mesmo local onde se encontra a primeira Igreja Matriz.

A ordem pública era de responsabilidade de duas autoridades policiais: o subdelegado Tenente José de Oliveira Lopes e o oficial do registro civil, Isaac Francisco Pimenta.

No campo profissional, a localidade era atendida por apenas dois advogados, Dr. Honório Martins de Mello e Dr. Luciano Benício de Abreu; dois médicos, Dr. Juvenal Marques Guedes e Dr. Marciano Diniz Coutinho; além de quatro engenheiros, Dr. E. Gentil Moura, Dr. Henrique Pennaforte, Dr. José Mastrella e Dr. João Serpa.

As duas primeiras cadeiras de instrução preliminar (ensino primário) haviam sido criadas em 1893, sendo uma para cada sexo. Sendo assim, o professor Adelio de Castro possuía 45 alunos, enquanto a professora Virgínia de Castro atendia a 25 alunas.

O Almanach indicou a existência de diversos estabelecimentos industriais ou de serviços, incluindo duas máquinas de beneficiar café, duas máquinas de serrar madeira, três sapatarias, duas funilarias, duas alfaiatarias e uma selaria.

A cafeicultura já despontava como o principal produto agrícola, chegando a cerca de 100 mil arrobas, as quais eram destinadas ao mercado externo, seguindo em tropas de mulas até a primeira estação ferroviária, de onde seguiria até o porto de Santos.

A contínua expansão da produção de café resultou no crescimento da Vila e com isso, em 11 de março de 1899, com a aprovação da Lei Municipal no. 34, de autoria do coronel Eduardo da Silva Pereira, ocorreu a elevação à categoria de cidade, conquista que foi efusivamente comemorada pelos bebedourenses. Desde então e até o ano de 1948, conforme abordado em artigo anterior, a referida data tornou-se o Dia da Cidade.

 

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,

www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 11.006, sábado a terça-feira, 16 a 19 de maio de 2026 – Ano 101