Bebedouro pelos olhos de um visitante: a Festa de São João há 125 anos

José Pedro Toniosso

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À esquerda, o Coronel Silvestre de Lima, político e jornalista barretense que narrou a festividade em 1901; à direita, o raro cartaz da programação oficial de 1907 publicado no Jornal de Bebedouro, cujos detalhes confirmam as alvoradas, novenas, leilões e as tradicionais "diversões profanas" da época em Bebedouro. (Fotos: Acervo / Divulgação)

Uma das tradições mais antigas e ainda presente entre os bebedourenses, a festa dedicada ao padroeiro São João Batista não tem uma data de origem conhecida, mas entre os registros aos quais tivemos acesso, até então o mais antigo refere-se a um relato publicado na edição de 30 de junho de 1901 do jornal “O Sertanejo”, da vizinha cidade de Barretos.

Na ocasião, o redator chefe do semanário, coronel Silvestre de Lima, juntamente com amigos, fizera uma visita a Bebedouro para participar dos festejos em honra ao padroeiro local e no relato publicado apresentou suas considerações não apenas a respeito da festa, mas também sobre diversos aspectos de nossa cidade.

O redator inicia ressaltando o seu apreço pelas festas, o que o motivou a transpor as cerca de 8 léguas que separavam as duas cidades, mesmo considerando as precárias condições da estrada de terra. A viagem foi antecedida por muita expectativa, tendo em vista que vários barretenses que por aqui passaram, exaltavam o progresso da localidade.

No entanto, não foi o que encontrou ao chegar, pois conforme deixou registrado “Nâo era aquela a Bebedouro que antevíamos. Deparou-se-nos uma rua mal-cuidada, casas velhas, de péssima construção. Era a rua do Comércio, de todas, a mais antiga.” Tratava-se da atual rua Vicente Paschoal, antiga estrada que fazia a ligação entre Jaboticabal e Barretos e onde foram edificadas as primeiras moradias e estabelecimentos comerciais, a partir da segunda metade do século XIX.

Após ter se acomodado no denominado Hotel Paulista, dirigiu-se ao local onde a Festa era realizada, comentando sobre a cenário que encontrou: “Percorremos a citada rua do Comércio, navegando sobre um oceano de areia; notamos desusado trânsito de cavaleiros que chegavam dos arredores, pedestres que passeavam etc. Chegamos ao largo de S. Sebastião (atual praça Nove de Julho), onde está situada pequena igreja; instalado o Circo tauromáquico, residindo-nos ainda a mesma impressão em que se deteve a velha rua do Comércio”.

No entanto, ao chegar ao Largo da Matriz, que corresponde às atuais praças Monsenhor Aristides e Barão do Rio Branco, a má impressão inicial se dissipou, enaltecendo o clima de festividade que encontrou: “Em frente à Egreja, dispostas em linha e todas de igual fórma, erguiam-se elegantes barraquinhas, onde se davam diversos jogos, tendo também botequim etc. Extensas linhas de bandeirolas multicores cortavam-se em diversas direcções, dando à vasta praça um tom de verdadeira alegria em que parecia estar immerso o povo que então concorria ao local”.

Chamou sua atenção também a elegância do jardim e das construções existentes no entorno, bastante distintas das que presenciou na rua do Comércio: “Bellíssimos prédios, de construcção moderna, recem-acabados davam a última demão para convencer ao visitante de que se achava em uma cidade florescente, próspera. Encantaram-nos deveras o bem tratado jardim público, com um elegante coreto; constitue inilludivel documento de que em Bebedouro se cogita seriamente de construir-se uma cidade com todos os melhoramentos actualmente recommendados, tendo em vista o preceito hygienico da arborisação alliado ao preceito social de proporcionar ao público agradáveis diversões, como sejam as que se podem dar n’aquelle local.”

Sobre o aspecto religioso da festa do padroeiro, assim se manifestou: “Approximando-se a hora de celebrar-se o officio religioso, dirigimo-nos para o modesto templo, a Egreja Matriz, que então já regurgitava de fiéis. […] Officiou o Revmo. Padre Miguel Rufo, Vigário da Parochia. A orchestra, sob a direcção do conhecido prof. Felippe Pace, era magnífica”.

Após as solenidades religiosas, conforme escreveu, houve leilão de prendas no coreto e a presença de uma “sofrível” companhia de cavalinhos (circo com números de acrobacia equestre), que procurava entreter o povo.

No dia seguinte, dedicado a São João Batista, houve missa na Matriz e uma “imponente procissão”, que percorreu as principais ruas. Após, houve a apresentação de um circo de touros (touradas) e queima de fogos, finalizando as festividades.

Após retornar à sua terra natal, o redator publicou sua crônica, que finalizou enaltecendo o progresso bebedourense: “É realmente notável que uma povoação que há apenas 15 ou 16 annos fazia-se distinguir por 15 ou 20 casebres, se encontre actualmente transformada em uma cidade com 400 prédios aproximadamente! Desappareceram seus característicos de cidade sertaneja”.

 

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,

www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 11.015, sábado a terça-feira, 27 a 30 de junho de 2026 – Ano 102