Cérebros teimosos

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A doença de Alzheimer passou a ser mais percebida pelas pessoas nas três últimas décadas. Se antes ninguém ouvia falar sobre o mal, durante esse período foi significativo o aumento do número de casos em que uma avó, uma tia, um tio, ou mesmo um vizinho próximo tenha apresentado os sintomas característicos, como falhas no julgamento moral, dificuldades em se expressar, de perceber o tempo e o espaço e, principalmente, de recuperar os acontecimentos recentes. Provavelmente tomamos mais contato com a doença devido ao aumento da expectativa de vida da população, que décadas atrás geralmente morria antes do aparecimento dos sintomas.
Hoje uma em cada 10 pessoas com mais de 65 anos apresenta os sinais do Alzheimer. É uma doença que ainda não tem cura, apenas tratamento alternativo para uma sobrevida menos traumática tanto para o paciente quanto para sua família.

A questão da perda

Não há dúvidas de que o Alzheimer, como o câncer, é uma das doenças mais estudadas no planeta. Centenas, senão milhares de pesquisadores, se concentram exaustivamente sobre sua arquitetura com objetivo de entender melhor as causas que dão início ao processo de destruição dos elementos pensantes do cérebro. Por um viés mais técnico, a demência é resultado da destruição das sinapses, sinônimo para os trilhões de conexões que ligam os neurônios que são as células cerebrais que dão vida à memória e ao pensamento. Um neurônio que perde o poder de se comunicar com outros tende a se atrofiar e morrer. Um cérebro que perde muitos neurônios tende a se atrofiar igualmente e apresentar sintomas de disfunção.
Mas, nem todos os doentes de Alzheimer são sintomáticos. Em outras palavras, nem todos eles desenvolvem a demência, perda de memória ou capacidade cognitiva. Parecem possuir um cérebro, digamos, teimoso: possuem a doença, mas não sofrem as consequências.

Um desvio instigante

Esse fato, no mínimo curioso, foi estudado por um brasileiro, aluno de doutorado da UFRJ chamado Carlos Humberto Andrade-Moraes e por seu orientador, Roberto Lent. Analisando ao microscópio os cérebros pertencentes a quatro senhoras com idade entre 80 e 82 anos que morreram próximo à época dos estudos, Carlos observou as famosas placas e emaranhados de proteínas que são os sinais característicos do Alzheimer. Era de se imaginar, portanto, que as senhoras tivessem sofrido os impactos da doença nos últimos anos de vida, mas, fazendo entrevistas com familiares e cuidadores, descobriu-se que todas elas viveram lúcidas até o último dia de vida.
Embora ainda não haja respostas definitivas para a ocorrência, diversas hipóteses têm sido levantadas para a existência de doentes de Alzheimer assintomáticos, como têm sido chamados os pacientes que não apresentaram em vida a manifestação real da doença.
Uma delas recai sobre a insulina, cujo papel no cérebro não parece ser o de controle do metabolismo do açúcar, mas sim, a consolidação da memória e a formação de novas sinapses. Especificamente um medicamento chamado liraglutina, usado para tratar diabetes tipo 2, bloqueou danos neurológicos em modelos animais de Alzheimer realizados em laboratório.

Maior reserva cognitiva

Outra hipótese levantada pelos pesquisadores dá conta de que os assintomáticos do Alzheimer possuem uma reserva cognitiva maior do que aqueles que desenvolvem a demência, reserva essa que acaba protegendo seus cérebros dos elementos nocivos às sinapses e aos neurônios. A ideia surge da observação de que os assintomáticos são pessoas com um nível de escolaridade maior ou que aprenderam a falar e escrever precocemente na infância. Como hipótese, ela ainda carece de provas a partir de pesquisas mais detalhadas.
E enquanto a cura não é descoberta, um ponto é inegável: precisamos utilizar o nosso cérebro em abundância para que ele não atrofie. Pequenos ensaios fora do padrão cotidiano como escovar os dentes com a mão trocada, dirigir-se ao trabalho ou há algum lugar sempre mudando a rota, vestir-se com os olhos fechados, memorizar a lista do supermercado, enfim, podem ajudar a exercitar o cérebro de tal modo a mantê-lo sempre em atividade e muito bem vivo. Não é tão difícil e vale a pena.

Publicado na edição nº 10154, de 20 e 21 de julho de 2017.