É prático e mortal

José Renato Nalini

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O plástico é algo que se incorporou à nossa vida. Parece que não conseguimos viver sem ele. Serve para muita coisa. Embalagem higiênica para produtos alimentícios e para os que servem à limpeza. Estão em todos os lugares os plásticos nas tubulações, nas peças dos eletrodomésticos, nos automóveis. Em praticamente tudo.

Só que essa invenção tão útil pode ser fatal. Principalmente para os outros animais, embora o homem também não esteja livre de sofrer consequências desastrosas provindas do plástico.

Falo dos peixes, que estão consumindo plástico no mar, assim como as tartarugas. Apurou-se que 1.565 espécies de animais, espalhados por todos os ambientes, comem esse derivado do petróleo. Foi o que noticiou a revista científica Science, num estudo feito por Robson Santos, da Universidade Federal das Alagoas e Ryan Andrade, da Universidade Federal do Espírito Santo. Trabalharam em conjunto com Gabriel Machovsky-Capuska, da Universidade Massey, na Nova Zelândia. Eles chamam esse fenômeno de “armadilha evolutiva”.

O que isso significa? É aquela situação em que os instintos dos animais ditos irracionais, resultantes de milhões de anos submetidos ao processo da seleção natural, não foram calibrados com a necessária diligência para detectar que o consumo desse material é algo fatal para eles.

O jornalista Reinaldo José Lopes, autor de “1499: o Brasil antes de Cabral”, lamenta que até se brinque a respeito disso, como o desenho de uma tartaruga a dizer “Tô chateada, queria tanto comer uma sacolinha plástica”. É uma crueldade perpetrada por ignorantes, pois o plástico está envenenando o planeta e se ele deixar de continuar a ser ambiente apto a hospedar a vida, toda espécie de experiência existencial desaparecerá. Inclusive a do homem, o pretensioso animal que se considera o único racional sobre a face da Terra.

A humanidade tem trilhado caminhos perigosos, que não a levarão a bom destino. Ainda é tempo de se converter. Mas isso custa. A inércia é uma grande força a manter paralisados os que se acostumam com algo e não querem mudar de hábitos. Por sinal que a vedação ao uso das sacolas plásticas já andou em voga no Brasil e, aos poucos, foi deixando de ser observada. Afinal, estamos no país em que há “leis que pegam e leis que não pegam”. Pagaremos por isso.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022.)

Publicado na edição 10.602, de  18 a 20 de agosto de 2021.