Empreender no século 19

José Renato Nalini

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Uma das palavras de ordem contemporâneas é empreendedorismo. Só que empreender não é novidade para o Brasil. Talvez o paradigma do empreendedor tupiniquim tenha sido Irineu Evangelista de Souza, o Visconde de Mauá.

Ele fez grandes obras, dentre as quais a Estrada de Ferro Santos a Jundiaí. Fez o serviço de iluminação da capital do império, o serviço da navegação no Amazonas, o telégrafo submarino e, sem esmorecer, enquanto realizava tudo isso, ainda cuidava do que chamava “trabalhos menores”. Quais eram?

Antecipou-se ao urbanismo do Rio e construiu o Canal do Mangue. Modernizou a empresa de bondes do Jardim Botânico. Perdeu dinheiro com Cochrane, no caminho de ferro da Tijuca. Associou-se à Companhia Fluminense de Transportes. Foi sócio dirigente da Lux Stearica. Planejou o abastecimento de água da capital do Império. Auxiliou a Companhia de cortumes e estimulou a dos diques flutuantes. Tudo isso, só na capital: o Rio de Janeiro.

Fora da capital, explorou ouro no Maranhão, empenhou-se na solução do problema do braço escravo, antes dos estadistas. Fundou colônias agrícolas de trabalhadores livres, portugueses e chineses, nas terras concedidas no Amazonas e no Pará e em suas fazendas no Rio de Janeiro, dentre as quais a fazenda Atalaia, em Macaé.

Dedicou-se a programar a questão do carvão de pedra nacional. Estudou pecuária e deu-lhe amplo incremento em seus campos gaúchos, uruguaios e argentinos, através da Companhia Pastoril.

Por isso, dele afirmou Tristão de Athayde: “O precursor admirável, essa figura realmente única em nossa história – o Visconde de Mauá, desde a maioridade até a República, acompanhando a realeza imperial com a sua realeza econômica, na ascensão e na decadência, pressentiu e tentou resolver todos ou quase todos os grandes problemas econômicos brasileiros, os problemas essenciais do período moderno de nossa história, desde os interesses do Rio Grande, que representou na Câmara, até a navegação do Amazonas. Foi um quadro assombroso de unificação nacional na cabeça de um só homem, o Caxias da unidade econômica”.

É um vulto histórico a ser redescoberto, para servir de estímulo a jovens patrícios que desanimam diante do primeiro empecilho. Mauá, o empreendedor, verdadeiro herói nacional.

(José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022).

Publicado na Gazeta de Bebedouro – Edição 10.672, sábado a terça-feira, 4 a 7 de junho