Era das cidades

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Marcos Cintra

A Organização das Nações Unidas (ONU) divulgou recentemente em seu relatório “State of the World’s Cities” que ao término da crise financeira iniciada em 2008 o mundo vai descobrir que o motor de sua prosperidade será “o dinamismo e a intensa vitalidade das cidades”. Ou seja, os centros urbanos, e não os países, é que vão comandar a criação de riquezas no planeta. Questões relacionadas ao trânsito, meio ambiente, fornecimento de água potável, entre outros, vão afetar a capacidade de crescimento da economia.
O relatório da ONU reforça a ideia de que os gestores públicos têm um grande desafio pela frente por conta da rápida urbanização da população mundial. Há cinco anos o número de pessoas vivendo nas cidades ao redor do mundo ultrapassou a dos habitantes do campo e esse processo vem se acelerando e tendo forte impacto sobre, por exemplo, a poluição do ar, a demanda de energia, a produção de lixo e o abastecimento de água.
Segundo a ONU, dos 7 bilhões de pessoas que habitam o planeta, 3,5 bilhões moram nas cidades e daqui a 20 anos o contingente urbano deve atingir 5,5 bilhões de indivíduos. A população urbana representa hoje metade dos habitantes do planeta e por volta de 2030 ela será superior a 60% do total.
Essa acelerada expansão populacional causa apreensão por conta do impacto que isso vai gerar nas grandes e médias cidades dos países em desenvolvimento. Nessas nações se concentrará a maioria da população urbana adicional prevista pela ONU.
A questão que surge é se as grandes e médias cidades dos países em desenvolvimento estão preparadas para abrigar, em tão pouco tempo, esse elevado contingente adicional de pessoas. É certo que não. Metrópoles como São Paulo, por exemplo, têm problemas urbanos agudos e a tendência é que eles se intensifiquem, podendo causar colapsos de natureza ambiental, social e infraestrutural, o que traria sérios entraves para a economia não só paulistana, mas para todo o País.
A cidade de São Paulo tem hoje onze milhões de habitantes e até 2030 esse contingente deve se aproximar de treze milhões. Serão dois milhões de pessoas a mais em um espaço que já concentra problemas de toda ordem, e que se intensificam a cada dia.
Para se ter uma ideia, na cidade de São Paulo mais de 40% dos habitantes moram em imóveis precários (favelas, cortiços e loteamentos irregulares), a água é mais escassa que no sertão nordestino, a reciclagem das doze mil toneladas de lixo coletadas todo dia é insuficiente, metade do esgoto residencial não é tratado e o trânsito caótico gera perdas bilionárias para a sociedade.
O município de São Paulo acumula problemas que comprometem, de modo acelerado, a qualidade de vida de seus moradores. A perspectiva de aumento populacional pode tornar a situação ainda mais crítica se o poder público não agir com eficiência e eficácia. Esse cenário vale para a maioria das grandes e médias cidades brasileiras.
Novas demandas urbanas estão surgindo e elas precisam de novos tratamentos. Velhas medidas não servem mais frente a uma dinâmica que assume novas formas por conta de aspectos ambientais. É preciso produzir cada vez mais preservando o ar, o solo, as águas e a biodiversidade.

(Colaboração de Marcos Cintra, doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.www.marcoscintra.org / mcintra@marcoscintra.org).

 

Publicado na edição n° 9482, dos dias 4 e 5 de dezembro de 2012.