Evitando um desastre maior

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Wagner Zaparoli

Pela Terra já passaram milhares de espécies animais e vegetais que hoje não existem mais. Estão extintas. Um exemplo de destaque é o dinossauro. Viveu no planeta há mais de 60 milhões de anos, e por um capricho da natureza – a queda de um meteoro – desapareceu definitivamente da natureza, embora deixando muitos vestígios. Por esses vestígios arqueológicos sabemos quem era, como vivia, o que comia e como se reproduzia.

Mas não foram os únicos. O morganucodon, pequeno réptil semelhante ao musaranho, viveu na época dos dinossauros, e como eles, desapareceram. A Moa Gigante, ave semelhante ao avestruz, também foi extinta juntamente com a sua fiel predadora, a águia-de-haast.

A lista é grande. Somente no continente americano várias espécies tiveram o mesmo fim: Onça-do-Arizona, Carcará-de-guadalupe, Periquito-da-Carolina, Mamute-lanoso, e Foca-monge-das-caraíbas, para citar apenas algumas. Na Europa a lista não perde em nada. Dentre outros, podemos citar o Hipopótamo-pigmeu-de-chipre, o Unicórnio-gigante, o Leão-das-cavernas, e o Elefante-de-presas-estreitas.

Não existe uma causa única para o desaparecimento de uma espécie, mas muitos fatores estão ligados ao meio-ambiente, em especial, ao desequilíbrio de seu habitat natural. Se no passado não muito longínquo uma espécie se extinguia anonimamente, sem que alguém se desse conta, hoje a situação mudou. Embora a população em geral esteja mal informada sobre o assunto, grupos de cientistas, organizações não governamentais e mesmo instituições governamentais, aderiram a um protocolo mínimo e informal de cuidados com a natureza. Esforços pelo mundo são realizados no intuito de não se perder mais espécies como antes, trabalho complexo e desgastante.

Uma das pesquisadoras ícones sobre esse assunto é Camille Parmesan, que defende e aplica a idéia da migração assistida.

O desequilíbrio exposto

Pesquisadora da Universidade do Texas, EUA, Parmesan há muitos anos vem estudando a influência do meio ambiente sobre a extinção das espécies. A partir de meados da década de 1990 ela tornou-se uma das biólogas preservacionistas mais importantes no monitoramento das conseqüências que as rápidas mudanças globais estão provocando às plantas e animais em todo o mundo.

Durante cinco anos, Parmesan percorreu a costa oeste americana estudando detalhadamente plantas que abrigam insetos. O foco de seus estudos foram as borboletas, em especial, a checkerspot, pequena criatura colorida com manchas marrom, laranja e branca nas asas.

A idéia de estudar borboletas adveio das frágeis condições de vida que levam, principalmente da dependência das condições climáticas que mantém as flores intactas, seu principal abrigo e alimento. Nesse estudo Parmesan identificou que 75% das populações de borboletas que viviam em latitudes mais baixas (clima quente, próximo ao México) estavam extintas, enquanto somente 20% das populações que viviam em latitudes mais altas (clima ameno para frio, próximo ao Canadá) desapareceram.

Esses resultados alarmaram a comunidade científica, tanto que outros pesquisadores começaram a empreender estudos semelhantes para entender literalmente o tamanho do estrago. Os novos resultados não foram nada promissores, evidenciando um completo desequilíbrio no ambiente: flores desabrochando antes da época, plantas e animais deslocando-se para regiões mais próximas do pólo, patógenos tropicais avançando para latitudes mais altas – e com isso, atacando e matando massivamente espécies não preparadas – e a extinção até de mamíferos, como é o caso do gambá branco da Austrália.

Ajuda a quem precisa

Com todos os dados compilados, Parmesan divulgou uma idéia radical para preservação das espécies: a migração assistida. Como é sabido, muitas espécies não conseguem se adaptar à rápida mudança climática que tem ocorrido em várias partes do mundo. Isso significa a extinção para elas, a não ser que algum milagre lhes venha em socorro. A migração assistida seria um deles.

Em termos gerais, a migração assistida refere-se à transferência “forçada” de espécies ameaçadas de extinção para novos habitats, os quais poderão assegurar a essas espécies, uma probabilidade maior de vida.

Essa idéia provocou e ainda provoca muita controvérsia. Biólogos contrários à idéia alegam que a transferência pura e simples de espécies para novos habitats pode por em risco as espécies que ali vivem harmoniosamente. Alegam também que não existem modelos confiáveis que atestam a idéia positivamente, e que muita pesquisa ainda deve ser realizada para que ações sejam de fato tomadas.

Pelo sim ou pelo não, o fato é que as pesquisas realizadas por Parmesan revelam que a natureza mantém-se em equilíbrio perfeito, mas frágil o suficiente para se extinguir no menor dos descuidos.

E olha que o homem tem se mostrado muito descuidado.

Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação.

Publicado na edição nº 10282, de 5 e 6 de julho de 2018.