Feccipa coloca alunos no papel de protagonistas da história de Bebedouro

Com o tema “Bebedouro e sua gente”, festival transformou memória da cidade em aprendizado, encenações e experiências conduzidas pelos estudantes.

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Entrar na Escola Estadual José Francisco Paschoal entre quarta-feira (19) e sexta-feira (21) era também fazer viagem por diferentes períodos da história de Bebedouro. Edições antigas de jornal, fotografias, câmeras, objetos históricos e até uma bicicleta utilizada para entregar exemplares da Gazeta de Bebedouro dividiam espaço com estudantes que deixaram, por alguns momentos, de ser apenas alunos para assumir o papel de personagens que ajudaram a construir a memória da cidade.

A experiência fez parte da III Feccipa — Feira de Ciências e Cultura da Escola José Francisco Paschoal. Com o tema “Bebedouro e sua gente”, a terceira edição transformou os espaços da unidade escolar em ambientes dedicados à história local e colocou os próprios estudantes como responsáveis por apresentar este passado aos visitantes. Nas demais salas da escola, espaço dedicado aos artistas da cidade, bem como espaço para feira de ciências, nutrição, educação física, história, inclusão, empresas e muito mais.

A Gazeta acompanhou a feira e percorreu as salas preparadas pelos alunos, em uma delas, a dedicada a resgatar a história da comunicação de Bebedouro, o espaço reuniu dois veículos diretamente ligados à trajetória do município: a Gazeta de Bebedouro, que completou 102 anos em 2026, e a Rádio Bebedouro, que chegou aos 80 anos.

Na noite de quarta, na abertura, os estudantes encenaram parte da trajetória da cidade. Passaram pela Gazeta, pela festa da laranja, a escolha da rainha da festa e pela chegada dos tropeiros a Bebedouro, com convidados que participaram com cavalos do momento. O Hino a Bebedouro também foi encenado pelo coral da escola.

Uma sala para atravessar 102 anos de história

A viagem pela comunicação bebedourense começava pela imprensa escrita. Logo na entrada, os visitantes eram introduzidos à história da Gazeta de Bebedouro e à relação centenária do jornal com a cidade que carrega no nome.

A apresentação recuperava a fundação da Gazeta, em 6 de junho de 1924, e passava por nomes que estiveram ligados aos primeiros anos do periódico. Lucas Evangelista era apresentado como fundador, ao lado de outros personagens que fizeram parte da trajetória inicial do jornal.

Mas contar a história de um jornal centenário significava também contar acontecimentos que passaram por suas páginas. E foi esse um dos caminhos adotados pela exposição.

Entre os episódios recuperados estava a transformação da pequena capela que deu lugar à Igreja Matriz de São João Batista, registrada pela Gazeta em edição de 1950. A apresentação também destacava a participação da Gazeta na mobilização para que Bebedouro tivesse sua primeira instituição de ensino superior, assunto que estampou a edição de 2 de dezembro de 1958. Dois anos depois, em maio de 1960, o periódico registrava outra luta da cidade: a instalação de uma retransmissora de televisão no município.

Memória — Estudantes interpretam personagens ligados à trajetória da Gazeta de Bebedouro e conduzem os visitantes por momentos dos 102 anos do jornal, com edições históricas, fotografias, câmeras e objetos do acervo, supervisionados pela prof Andresa.

Juca Caldeira volta à Gazeta pelas mãos dos estudantes

A história ganhava outra dimensão quando os alunos entravam em cena. Dois estudantes interpretavam Juca Caldeira, nome que marcou a trajetória da Gazeta de Bebedouro, enquanto uma aluna assumia o papel de Sarah Cardoso, filha de Juca e atual responsável pelo jornal.

Caracterizados, os estudantes recebiam os visitantes e conduziam a apresentação como se fossem os próprios personagens. Era por meio deles que homenagens, realizações e diferentes momentos da história de Juca e da Gazeta eram apresentados.

Em determinado ponto, o aluno que interpretava Juca conduzia os visitantes por linha do tempo que começava na fundação da Gazeta e chegava a 1943, quando Juca passou a assumir a Gazeta. Depois, avançava por diferentes acontecimentos e realizações relacionados à sua trajetória.

A Fonte Sonoro Luminosa Gazeta de Bebedouro, a Apae, o CSU que recebeu seu nome e outras realizações apareciam ao longo desse percurso. A linha do tempo também chegava à reinauguração da fonte, em 2007, ao aniversário de 90 anos da Gazeta, em 2014, e, finalmente, aos 102 anos completados em 2026.

Jornal antigo, câmeras e a bicicleta que entregava notícias

Ao redor dos estudantes, o acervo ajudava a materializar aquilo que era contado. Edições antigas e históricas da Gazeta permitiam observar como acontecimentos de outras décadas chegaram aos leitores. Fotografias, câmeras antigas e diferentes objetos completavam o cenário. Parte do material histórico utilizado na exposição foi obtida junto ao Memorial da Gazeta.

Entre os objetos, um chamava atenção pela simplicidade e, ao mesmo tempo, pelo que representava: uma antiga bicicleta utilizada para a entrega da Gazeta aos assinantes. Durante a apresentação, era o próprio estudante no papel de Juca quem mostrava o objeto aos visitantes: “Aqui são os materiais que eram usados na época. Aqui nós podemos ver uma bicicleta que era usada para entregar jornais”, explicava.

Terminada a apresentação sobre a Gazeta, a viagem ainda não havia acabado. O estudante que interpretava Juca Caldeira fazia ele próprio a transição: era hora de passar a palavra para o rádio.

Do papel para o microfone

A mudança de um espaço para outro também representava passagem entre diferentes capítulos da comunicação de Bebedouro. Se na primeira parte os estudantes mostravam páginas, fotografias e objetos ligados à imprensa escrita, na sequência os microfones entravam em cena. A Rádio Bebedouro, que completa 80 anos de história, ganhava seu próprio espaço dentro da experiência.

Os alunos apresentavam a trajetória da RB e recuperavam programas e personagens que fizeram parte da relação da emissora com a população. Entre as referências estava a “Rotativa”, com Hely Simões, também representado, que vai ao ar até hoje às 11h e marcou diferentes gerações de ouvintes.

Mais uma vez, entretanto, a Feccipa não se limitava a explicar e os estudantes faziam rádio. Diante dos visitantes, dois alunos assumiam os microfones e simulavam programação radiofônica. Havia apresentação, locução e música. Em um dos momentos registrados pela Gazeta, “Obrigado ao Homem do Campo”, de Dom e Ravel, era anunciado pelo bisneto do tio Juca, e tocada durante a encenação.

A proposta permitia que quem entrasse na sala não apenas ouvisse falar sobre a importância histórica do rádio, mas acompanhasse a representação da maneira como essa comunicação chegava às casas dos bebedourenses.

Helly Simões também ganha representação

A imersão pela história da RB seguia com outro personagem ligado à comunicação local. Um estudante interpretava Helly Simões e apresentava sua trajetória aos visitantes. Na introdução da sala, Helly era citado como um dos nomes de destaque da história da Rádio Bebedouro e do jornalismo local.

A cada visitante que chegava, a história precisava ser contada novamente. Os alunos repetiam as apresentações, explicavam os objetos, percorriam a linha do tempo, assumiam os personagens e colocavam novamente o programa de rádio no ar.

Quando estudar a cidade significa também se reconhecer nela

É nessa participação dos estudantes que a proposta da Feccipa ultrapassa a exposição de objetos antigos. Para apresentar cada personagem, instituição ou acontecimento, foi necessário primeiro conhecer essas histórias. Juca Caldeira, Sarah Cardoso, Helly Simões, Gazeta de Bebedouro e Rádio Bebedouro deixaram de ser apenas nomes encontrados em pesquisas e passaram a integrar uma experiência construída pelos próprios alunos.

A terceira edição da feira colocou no centro da escola a memória da cidade onde esses estudantes vivem. A história apresentada não estava distante geograficamente nem restrita a grandes acontecimentos nacionais. Estava nas ruas de Bebedouro, nos prédios conhecidos pelos alunos, nos veículos de comunicação da cidade, nas instituições e nas pessoas que ajudaram a construí-la.

 

Homenagens despertam emoção e reforçam importância de preservar a memória

A representação feita pelos estudantes também provocou emoção em quem carrega relação direta com as histórias apresentadas na Feccipa. Rita Simões acompanhou a homenagem a Helly Simões e destacou a importância de uma nova geração conhecer a trajetória dos meios de comunicação de Bebedouro e compreender como veículos e profissionais conseguiram atravessar décadas mantendo sua atuação.

“Saber de onde vieram os meios de comunicação e a importância deles, principalmente a dificuldade que tiveram para se manter vivos ao longo de 102 anos, de 80 anos no ar, e um radialista como meu pai, 70 anos no ar, é um feito grande. E ainda teve a sorte de passar adiante a emissora de rádio para a família Galvão, que foi de cortesia extrema com ele e manteve, nos estúdios da Rádio Bebedouro, a sala do Helly Simões, com a máquina de datilografia dele”, contou Rita Simões.

A emoção também esteve presente para Ana Maria Patah Galvão Moura ao encontrar a trajetória da Rádio Bebedouro representada dentro da escola: “Muita emoção porque a rádio, há 80 anos, registra os fatos, os acontecimentos, as notícias e é um veículo de entretenimento também. A gente verifica, pela troca de comunicação que os ouvintes fazem, a importância da RB”, disse.

Ela também destacou a relação entre a Rádio e a Gazeta na preservação dos acontecimentos: “Através da palavra escrita e da palavra oral, a população tem conhecimento das notícias e dos fatos. A gente fica muito agradecida pela oportunidade de estar presente e reconhecendo a importância da escola e dos alunos, que estão relembrando e reaprendendo também um pouco da história”, completou.

Nova geração conhece a história da comunicação

Ex-prefeito de Bebedouro, Fernando Galvão ressaltou a participação dos estudantes na recuperação de histórias construídas muito antes do nascimento deles. Para ele, o trabalho desenvolvido pela escola possibilitou que crianças e jovens entrassem em contato com a importância de dois veículos pioneiros da comunicação local.

“Primeiro, gratidão pela escola, pela professora Andresa e pelos lindos alunos, que conseguiram, mesmo em uma geração muito recente, destacar a importância de dois veículos de comunicação que foram pioneiros na cidade. E não é por acaso que eles recebem o nome e o sobrenome da cidade”, afirmou.

Galvão também relacionou o aprendizado proporcionado pela feira à responsabilidade dos veículos de comunicação diante das transformações provocadas pelas redes sociais: “O mais importante é que os dois veículos continuaram firmes e fortes naquilo que têm como raiz e origem. Dois veículos que defendem Bebedouro, que respeitam Bebedouro. Essa é a maior prova: as crianças e jovens entenderem que veículo de comunicação não serve para tumultuar, criar fatos, boatos, mentiras, ofensas. Nós temos que ajudar, e esses dois veículos provam que é possível, em todo momento conturbado das redes sociais, continuar vivos, firmes e fortes no nosso propósito, que começou há 102 anos na Gazeta e 80 anos atrás com a Rádio Bebedouro. Essa, para mim, é a maior lição”, declarou.

O ex-prefeito ainda agradeceu aos responsáveis pelo projeto e ressaltou o papel dos professores como referências para os estudantes. Segundo Galvão, mesmo diante de um cenário em que as redes sociais ocupam espaço central na comunicação, a escola escolheu recuperar a trajetória do jornal e do rádio e a relação mantida pelos dois veículos com a cidade.

Feira saiu do papel com parcerias

A realização da terceira edição também foi marcada pelo esforço da equipe escolar para viabilizar o evento. Durante a visita, a professora Andresa Mantovani destacou a importância das parcerias para a escola pública e afirmou que o trabalho desenvolvido na José Francisco Paschoal tem como objetivo ampliar as perspectivas dos estudantes por meio da educação.

“Agradecemos o apoio, porque a escola pública se faz com parcerias. Quando nós chegamos aqui, chegamos com um intuito único: transformar a vida dos nossos alunos através da aprendizagem. Mostrar para eles que não é porque estudam no Paschoal, não é porque são alunos do Mutirão, que não podem sonhar. Sonhar com faculdade, com futuro melhor. E, graças a Deus, nós conseguimos”, afirmou.

Segundo a professora, a edição de 2025 da Feccipa não chegou a ser realizada devido à falta de recursos financeiros. Neste ano, a dificuldade permaneceu, e a escola buscou parceiros para conseguir colocar a programação em prática: “Esse ano também não tínhamos recursos. Nenhum centavo. Só coragem e fé em Deus. Quando um desanima, o outro fala: ‘Não, nós vamos conseguir’. Pede para um, pede para outro. Eu não sei como saiu, mas saiu”, relatou.

Mantovani afirmou ainda que a intenção é consolidar a realização anual da feira e ampliar sua duração nas próximas edições: “Isso aqui vai crescer cada vez mais. Ao invés de dois dias de feira, vãoi ser três, quatro, cinco. E a garantia de ter todo ano. Não pode falhar mais”, projetou.

Entre memórias recuperadas, personagens interpretados e histórias apresentadas pelos próprios estudantes, a terceira Feccipa aproximou diferentes gerações dentro da José Francisco Paschoal. Para quem visitou a escola, foi oportunidade de reencontrar partes da história de Bebedouro. Para os alunos responsáveis por contá-las, foram dias dedicados a conhecer um pouco mais da cidade da qual eles próprios fazem parte e tentam, diariamente, construir um Mundo Melhor.

Publicado na edição 11.028, quarta, quinta e sexta-feira, 26, 27 e 28 de agosto de 2026 – Ano 102