Há muito mais além da montanha

José Mário Neves David

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Com o desenrolar dos acontecimentos políticos que cercam a eleição presidencial de 2022, que nos bate à porta, cada vez mais fica evidente a polarização da população brasileira – ou, ao menos, parte considerável dela – em relação às opções de voto no ano que se avizinha.

Pesquisas prévias de intenção de voto indicam um distanciamento considerável do primeiro e do segundo colocados em relação aos demais pré-candidatos ao Palácio do Planalto. Tudo bem, sabemos que falta mais de um ano para as eleições, mas em um País cuja renovação política é lenta e que carece de lideranças e alcance nacional, não se pode desprezar os resultados até aqui observados.

O que se depreende da análise fria dos números divulgados é que o Brasil está dividido. De um lado, apoiadores do atual presidente, cuja atuação desperta paixões e críticas na mesma proporção. De outro, um ex-presidente cuja candidatura é alvo de críticas e contestações, porém ainda detém forte apoio popular. Como semelhança, contudo, ambos representam os polos opostos de uma equação política complexa e imprevisível.

Neste contexto, fica a questão: em um País com dimensões continentais como o Brasil, multicultural, com tantos contrastes sociais, econômicos e políticos, será que precisamos sempre, como nas últimas eleições, ficar presos a apenas duas opções, “este ou aquele”, “nós ou eles”?

O Brasil é uma das democracias em que mais partidos políticos existem e coabitam o agitado ecossistema político. Afora o questionamento da real ideologia dos mais de trinta partidos brasileiros, que mais se parecem com empresas do que com núcleos de debate político sério e plural, é inegável que a existência de múltiplos grupos possibilita – ou deveria, ao menos – a disputa eleitoral com variedade e heterogeneidade de opções.

Neste contexto, é fundamental para a democracia que diferentes opções surjam para o escrutínio popular de 2022, especialmente em relação à cadeira e à caneta da Presidência da República. É muito importante para o debate político honesto e propositivo que outros atores com força, relevância e alcance surjam como opção para os brasileiros que estão candados dos extremos.

Desta forma, considerada a polarização e o desalento do brasileiro médio quanto à condução das questões políticas de apelo nacional, faz-se necessária a existência de candidatos(as) e programas de governo que superem a polarização e busquem o melhor governo para todos, e não para torcidas, facções e grupos específicos.

Apesar do funil político estar, já, se estreitando, é inegável que ainda há a construção de alianças e a tentativa de junção de forças, ainda que aparentemente antagônicas, para a construção das terceiras, quartas e quintas vias na eleição presidencial do próximo ano. Aos que não se identificam com o candidato A ou B, é importante que haja a alternativa C, D e E, para que as propostas sejam ouvidas e a escolha, realizada, sem que tenhamos que cair na velha e surrada sina do voto no “menos pior”.

Olhemos para o futuro, sem paixões e com espírito de Nação, para que possamos sair da armadilha do “nós ou eles”. Há muito mais além da montanha, ainda que nos queiram convencer de que a montanha é intransponível. Somos muito, muito maiores do que isto.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas. Contato: jd@josedavid.net)

Publicado na edição 10.584, de 9 a 11 de junho de 2021.