Habeas Corpus entende que o brasileiro gosta de melodrama e faz dele uma maratona

Marcos Pitta

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Top 10 da Netflix - Habeas Corpus aposta no melodrama e na força de Marjorie Estiano para construir uma série brasileira ágil, intensa e difícil de parar de assistir. Foto: (Julia Maturana/Netflix)

A Netflix encontrou em Habeas Corpus uma combinação que a televisão brasileira conhece bem. Investigação, dilemas jurídicos e injustiças movimentam a trama, mas é o melodrama que sustenta sua força. Segredos, afetos e decisões difíceis atravessam episódios construídos para que o espectador queira imediatamente assistir ao próximo. A direção de Luiz Villaça e a montagem mantêm o ritmo sem sacrificar a continuidade emocional dos personagens.

No centro está Marjorie Estiano, que faz de Inez uma das personagens mais complexas de sua carreira. Professora cercada de dilemas éticos, ela oscila entre convicção e dúvida, e a atriz traduz essas mudanças em pequenas modulações de voz, postura e olhar. O fascínio que Inez exerce sobre os alunos se torna compreensível pela presença de Marjorie e pela maneira como ela constrói cada contracena.

Any Gabrielly encontra em Marina uma força dramática impressionante. Diante de acontecimentos dolorosos, evita manter o sofrimento em uma única intensidade. Sua escuta com Marjorie e Naruna Costa, intérprete de sua mãe, permite que a personagem revele diferentes dimensões sem perder coerência. Felipe Ricca, como Bernardo, também trabalha bem a admiração que sente pela professora.

Nicolas Lee oferece a Kim uma comicidade nascida do comportamento, com timing preciso e sensibilidade para abandonar o humor quando o conflito exige. Luiza Gabus constrói a rigidez de Raquel com variações que impedem a personagem de se tornar previsível, enquanto Pedro Roza encontra em Lima uma parceria afetiva convincente. Marisa Orth surpreende como Tina, delegada cuja lógica interna a atriz defende sem recorrer à comicidade. Danton Mello também valoriza as contradições de Pedro.

É com Jhonatan, interpretado por Hipólyto, que as discussões jurídicas ganham consequência humana. Preso injustamente, ele materializa as falhas de um sistema capaz de definir destinos antes de oferecer condições iguais de defesa. O ator dá corpo ao sofrimento que, nas salas de aula, poderia permanecer apenas como argumento.

Villaça aproxima a câmera dos rostos, respeita o tempo das reações e organiza os núcleos sem dispersar a tensão. Habeas Corpus entende que a maratona depende tanto dos ganchos quanto do desejo de permanecer com aquelas pessoas. Ao unir linguagem contemporânea e tradição melodramática, encontra uma identidade própria e faz cada episódio parecer curto demais.

Publicado na edição 11.040, sábado a sexta-feira, 10 a 16 de outubro de 2026