Meio cheio meio vazio

José Renato Nalini

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Nem tudo é o que parece à primeira vista. Na verdade, quase nada pode ser apreendido desde logo. Daí o perigo das certezas absolutas, algo tão comum em parcela considerável das pessoas que, a qualquer indagação, respondem logo “com certeza”!

Situações complexas não comportam resposta simples. temos de nutrir a nossa prudência, uma das “virtudes fracas” negligenciadas em tempos de polarização.

Indignado com o massacre da natureza, corro o risco de parecer fundamentalista na questão ecológica. Tendo mesmo a reconhecer que já foi superado ou ponto de inflexão e que o planeta não tem mais salvação. De qualquer forma, não me recuso a ouvir argumentos contrários à minha postura de amigo incondicional do ambiente.

Notícias recentes me chamaram a atenção e me fizeram refletir.

Vejo que a possibilidade de um novo Pré-sal na região norte preocupa organismos ambientais, enquanto estimula as empresas. Consta que há grandes volumes de petróleo na região do litoral entre Pará e Maranhão. Os projetos para exploração esbarram em restrições ambientais e encontram resistência de ONGs. De acordo com o Ibama, a atividade econômica decerto comprometerá a sobrevivência de recifes de corais e trará riscos para o parque estadual Marinho do Parcel de Manuel Luís. Esta unidade de conservação da flora e fauna marinha, situada no litoral maranhense, é sempre ameaçada.

De igual forma, a estrada de ferro que ligará Ilhéus a Caetité, rumo ao novo Porto baiano, podem afetar a biodiversidade. Em 5 anos, o litoral norte de Ilhéus será cortado pela Fiol – Ferrovia de Integração Oeste-Leste, que desembocará no Porto sul. A obra vinha em ritmo lento por restrições orçamentárias, mas deve recobrar celeridade com a concessão do trecho Ilhéus Caetité, traçado de 537 km que anima alguns dos moradores da região.

Ilhéus sofrera na década de 80 a praga da vassoura-de-bruxa, que dizimou seus cacaueiros. Mas nos últimos anos houve impulso turístico e retomada da produção do cacau no sistema “cabruca”, em que as árvores são plantadas sob o sombreamento da mata nativa. Mais de 70 fábricas de chocolate gourmet instalaram-se na região. Apostam em produtos de nicho com maior qualidade e valor. Se a ferrovia trouxer impacto ambiental e devastação da floresta, redução da biodiversidade, erosão da costa e poluição do ambiente marinho, adeus perspectivas de crescimento sustentável.

São apenas dois exemplos que devem suscitar uma reflexão ponderada. O cotejo do custo-benefício deve levar em conta a questão do aquecimento global e a possibilidade de o Brasil receber vultosos investimentos em troca de créditos de carbono.

Enfim, a natureza pede socorro e se defronta com o velho esquema do copo “meio cheio, meio vazio”, que encontra fervorosos adeptos de lado a lado.

(Colaboração de José Renato Nalini, Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – gestão – 2021- 2022).

Publicado na edição 10.595, de sábado a terça-feira, 24 a 27 de julho de 2021.