Mentirinhas, pavonada e meias verdades

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Gaudêncio Torquato

Balões de ensaio, versões polêmicas, verdades (meias verdades) e boatos costumam compor a locução rotineira dos centros e das margens sociais, que se expande nas tubas de ressonância das mídias impressa e eletrônica e, agora, nas céleres redes sociais da internet. Balões de ensaio são geralmente produtos manipulados em laboratórios político-partidários e visam, sobretudo, testar o grau de aceitação/rejeição social a atores ou ideias; versões de conteúdo polêmico são criadas por grupos ou pessoas para contradizer pontos de vista oficiais; verdades ou meias verdades, quando expressas em linguagem que destoa do porte litúrgico da autoridade que as emite, acabam criando embaraços para as instituições; e, fechando as comunicações que causam sensação, estão os boatos que, ao abarcarem temas sensíveis à grupamentos e setores, chegam a provocar ondas de pânico, contribuindo para a desorganização de estruturas e ameaçando a credibilidade de governantes. Numa cultura como a nossa, pontilhada por padrões que ferem a boa conduta, como oportunismo, má fé, ausência de compromissos, não causam surpresa coisas como factóides, perorações messiânicas, troca recíproca de verbos ferinos que adensam a tensão entre os Poderes da República. A pavonada – a ostentação dos galiformes – dá o tom maior dos discursos desbocados.
É o que se tem visto. Comecemos pela fala que ganha o carimbo de “politicamente incorreta”, da lavra do presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa. Disse ele em palestra numa Faculdade de Direito: os partidos políticos são de “mentirinha” e o Congresso é “inteiramente dominado pelo Poder Executivo”. Examinemos a fala. É evidente que os partidos são entes legais, legítimos e enquadrados nos estatutos da vida partidária. Se Sua Excelência pretendeu se referir à pasteurização, à perda da densidade ideológica, ao arrefecimento das bases, ao declínio das oposições, fenômenos que os tornam amorfos e assemelhados, na esteira da crise da democracia representativa, tem lá sua razão. Partidos representam parcelas do pensamento social e devem clarificar seu ideário. Mas a politicagem acaba tomando o lugar da política, entendendo-se aquela como a competição entre partidos para ocupar espaços nas estruturas governativas e aumentar seu poder. A expressão “mentirinha” soa mal no dicionário do comandante da mais corte de justiça. Denota o deboche.
É sabido que o Poder Legislativo frequentemente é refém do Poder Executivo, tanto pelo fluxo legisferante que patrocina (projetos de sua lavra, excesso de Medidas Provisórias), quanto pela condição do parlamentar que se vê obrigado a suplicar para que recursos do Orçamento para suas bases sejam liberados pela presidente da República. Essa é a costumeira avaliação que se faz da força do Executivo sobre o Legislativo, motivo que ensejará, em breve, debate sobre o orçamento impositivo, que extinguiria a exigência de liberação de verbas pela presidente. Dizer, porém, que o Congresso é dominado plenamente pelo Poder Executivo também é exagero, posto que o embate entre os dois Poderes tem se acirrado. Derrotas do governo são frequentes, apesar do rolo compressor da base governista, como se viu na votação do Código Florestal. O ministro Barbosa, extrapolando os limites da linguagem formal, comete uma ba(r)boseira, aqui entendida não como asneira, bobagem (como podem supor leitores influenciados pela fonética), mas pela já afamada mania de rasgar a fantasia litúrgica que veste o altar do Judiciário.
Entremos, agora, nas versões polêmicas. A de maior impacto, nos últimos dias, foi o editorial do jornal Financial Times, dizendo que a sensação de que tudo corre bem no Brasil é apenas uma “fachada”, ou seja, um verniz para encobrir as rachaduras da parede. A base de argumentação é a de que o crescimento da economia foi de menos de 1% e, este ano, o país cresce menos do que o Japão. De certa forma, a observação do FT assemelha-se à “mentirinha” proclamada pelo presidente do STF, a corroborar a tese de que nossos trópicos são, por excelência, o habitat da cultura da relatividade, caracterizada por equações que escapam ao rigor aritmético. Por aqui, o mais pode ser menos e vice-versa e até os contrários mudam de posição, como descreve o poema do saudoso Millôr sobre o Referendo do Desarmamento (2005): “Pedem-me um Não, eu digo “Pois sim”/ Exigem um Sim, digo “Pois não”/ E entre o sim e o não/ Eu me mantenho na contramão”. Por que a opinião do jornal inglês é polêmica? Porque a sensação de bem estar social é um fenômeno captado por pesquisas. O assistencialismo do programa de Bolsas mantém as margens sob certo conforto, mostrando, ainda, que o pibinho (pífio crescimento da economia) não chega a alterar o ânimo das margens sociais. O dado usado pelo ciclo lulista/dilmista funciona ainda como anteparo às baterias críticas: 30 milhões ingressos na classe média.
Os balões de ensaio enfeitam os céus. Basta ver os nomes do PT que Lula vai enfileirando na direção do Palácio dos Bandeirantes. Ou o balão chamado Eduardo Campos. Por fim, os boatos, as mentiras, geralmente de origem desconhecida, transportadas por uma rede sociológica de grupinhos. Alguém arquiteta uma situação, com impacto sobre os instintos de sobrevivência (bolso, barriga), conta o caso para um grupo, e dali, por vias diferentes, as pessoas vão passando a história para a frente, multiplicando indefinidamente o boato. Batendo nas redes sociais, o boato corre como rastilho de pólvora, como se viu com a onda de extinção do Bolsa Família. O corre-corre superlotou as agências da Caixa Econômica. Politicagem? Pouco provável. Na primeira hora, os bolsistas se revoltam contra o governo, mas na hora da verdade, os rumores, como um bumerangue, batem nas fontes por acaso identificadas. Brincadeira de mau gosto? Provável. A pilhéria, a piada, a gozação, a zorra frequentam, até, nossas tragédias cotidianas.

(Colaboração de Gaudêncio Torquato, jornalista, professor titular da USP, consultor político e de comunicação – Twitter@gaudtorquato).

Publicado na edição nº 9555 dos dias 6 e 7 de junho de 2013.