Mudam os costumes

José Renato Nalini

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O mundo perdeu Lygia Fagundes Telles dia 3 de abril de 2022. Aquela encantadora figura que sempre foi lenda, por sua beleza, por sua criatividade, por sua imaginação esfuziante, deixava uma existência povoada de tudo um pouco. Êxito literário, reconhecimento, prêmios, láureas, obra objeto de teses e dissertações, mas também sofrimento pessoal. Bem suportado por um espírito superior, que sabia contemplar o infinito, malgrado as misérias da terra.

Seu amigo há décadas, acorri ao seu apartamento. Onde tantas vezes nos reunimos para conversar, para tomar vinho, para gargalhar. Ela estava linda, reclinada em seu leito. Suavemente adormecida.

A epopeia burocrática para a remoção até à Academia Paulista de Letras, onde esteve durante tantos anos – era a decana da Casa de Cultura por excelência de São Paulo – e sua chegada, já com o átrio povoado de coroas em sua homenagem.

Em seu leito derradeiro, cercada de rosas brancas, com a echarpe de que não se separava, continuava linda.

Esperei que milhares de leitores e admiradores acorressem até o local onde seria velada por algumas horas. Vieram, sim, os amigos verdadeiros. Alguns dos confrades e confreiras. Os que não puderam, mandaram familiares.

Mas o povo, que fez do féretro de Luiz Gama um acontecimento memorável, do enterro de Monteiro Lobato um evento que contou com dezenas de milhares de cidadãos, não foi até lá. Era domingo, não havia horário de trabalho que impedisse deslocamento e presença maciça.

Que tempos tristes vivenciamos. Em shows como o recentemente acontecido na capital bandeirante, disputava-se um espaço para aplaudir os artistas. Os brasileiros que adoram filas, continuam a permanecer à espera de alguns doces especiais, de guloseimas, de artigos esportivos. Mas perderam a noção de que existem padrões culturais, personalidades que realmente merecem aplauso, mas que partem desta existência tão deplorável, praticamente sozinhas.

Lygia, tão superior em seus elevados sentimentos, riria. Compreenderia. Não lastimaria. Mas não ter despertado comoção popular  com sua partida é um testemunho eloquente do retrocesso nos costumes, nos hábitos de polidez, da perda de significado dos rituais do luto. Quanta perda de substância ética, moral e humanista em tão pouco tempo.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022.)

Publicado na edição 10.660, de sexta a quarta-feira, de 15 a 20 de abril de 2022.