Música transforma rotina de pacientes e profissionais do Hospital Estadual

A convite da gestão hospitalar, a Gazeta acompanha ação humanitária, promovida por jovens colaboradores da unidade hospitalar.

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Emocionante – No hall de entrada do Hospital Estadual, o grupo de jovens músicos deu início à sua apresentação, carregada de emoção, para pacientes e funcionários.

O amor, a compaixão e a empatia tomaram conta do Hospital Estadual de Bebedouro. Através de grupo de jovens comovidos pela situação vivenciada diariamente pelos profissionais de saúde e pacientes, a música ecoou pelos leitos e corredores da unidade especializada em tratamento da Covid-19.

Na noite de quinta-feira (8), a convite da gestão do hospital, mais uma vez, jornalistas da Gazeta de Bebedouro visitaram as instalações da unidade, acompanhando apresentações musicais, que tornaram a noite dos pacientes e profissionais de saúde um pouco mais leve. Paramentados da cabeça aos pés, os músicos e a equipe da Gazeta percorreram os leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e da enfermaria.

O grupo de jovens formado por colaboradores do Hospital tocam vários tipos de instrumentos, acompanhados de colegas membros de suas igrejas. “Reuniram-se funcionários que moram em Bebedouro, Barretos, Guaíra e Pitangueiras, com habilidade em algum instrumento musical, e decidiram realizar esta ação. Para compor o grupo, eles convidaram membros de suas igrejas que também tocam ou cantam”, conta o gerente de enfermagem do hospital, Leonardo de Matos.

Violinos, violões e saxofone entoaram canções do Hinário Cristão e outras músicas que falam de fé e esperança. Lágrimas de emoção e alegria eram visíveis nos rostos dos colaboradores, enquanto um dos pacientes da UTI, ainda intubado, porém consciente e orientado, quis ouvir mais de perto o som dos violinos. Enquanto um dos músicos aproximava-se de seu leito, o paciente acompanhava o ritmo da canção, balançando suavemente a mão.

“Recebemos esta equipe maravilhosa, realizando ações humanitárias através da música, que tranquilizaram nossos pacientes e os tiraram da rotina cansativa do tratamento intensivo, animando também nossos funcionários e fortificando nossas atividades”, diz o gestor do Hospital Estadual, Everton Zem, comemorando: “É gratificante para nós, colaboradores, e também para nossos pacientes, quebrar o clima de cansaço e tristeza que vivemos ao enfrentar, diariamente, esta doença tão grave. A verdade é que estamos muitos cansados, mas estas músicas nos renovam. Nós voltamos para cá no dia seguinte renovados, prontos para mais um dia”.

Para Zem, a música traz sintonia e paz de espírito. Para ele, como gestor, assim como para toda sua equipe, é um momento de cura de alma: “Nos tornamos uma coisa só: colaborador e paciente. É um momento de sair totalmente da rotina, vivenciando mais de Deus. Esta movimentação é diferente, nos anima. Saímos da rotina e nos envolvemos junto com o paciente. Deu para ver a empolgação deles, que mesmo em um momento tão delicado, alguns conseguiram levantar a mãozinha, mexer o dedinho, ou chamar a gente e mostrar que estão conseguindo ouvir. Isso, para nós, é valoroso, é maravilhoso”, emociona-se Zem.

“Estes jovens, que poderiam estar em festas, se aglomerando, optaram por estar aqui, de forma voluntária, para fazer o bem”, diz com alegria o gerente de enfermagem, citando a filosofia do presidente do Hospital de Amor, Henrique Prata: “A medicação não cura o paciente, o que cura é o cuidado, o abraço, o acolhimento e o amor. Neste momento tão difícil, em que há um ano não se fala de outra coisa a não ser Covid, estes jovens nos promoveram momento que é de Deus. O amor que foi entregue aos pacientes, hoje, é a melhor dose de qualquer medicação que eles poderiam receber em todo o tratamento. Esta noite resume-se a doses de amor, de cura e o sopro de Deus na vida de cada paciente”.

Leonardo de Matos se sentia feliz pelo apoio da população através destas parcerias, porque, segundo ele, apesar da pandemia não ter prazo para acabar e muitos ainda precisarem sofrer com ela, a aproximação da unidade com a comunidade, os faz crer que estão de mãos dadas, vencendo juntos esta fase.

Destaque para a empatia

Uma atitude exemplar de empatia saltou aos olhos da equipe da Gazeta e merece destaque: a enfermeira Gabriela Falconi, que acompanhava o grupo de músicos, de leito em leito, pedia para que os pacientes acordassem para ouvir as canções, chamando-os pelo nome.

Em entrevista a Gazeta, Falconi não contém a emoção: “Acredito que não é porque estão sedados, que não estejam escutando. Sigo a doutrina espírita e acredito que o espírito nos ouve, por isso, faço questão de conversar com eles. Já tivemos muitas provas de eles ouvem o que está à sua volta, inclusive hoje, que alguns acordaram ao escutar as músicas. Nós vemos suas reações e as mudanças de comportamento nos monitores cardíacos. Mesmo naqueles que não conseguem reagir fisicamente, quando acordarem, vão se lembrar do que ouviram. Faço questão de passar em cada leito pedindo para que acordem, para aproveitar estes momentos únicos”.

Quem faz

Dentre o grupo de músicos, três colaboradores da unidade hospitalar foram os responsáveis por organizar a ação: Giovani de Oliveira, do Almoxarifado, de Bebedouro; Bruna Menezes Silva, técnica de enfermagem, de Pitangueiras; e Daniel Tuissi, técnico de manutenção clínica do setor de Engenharia, de Guaíra.

Para Giovani de Oliveira, é um privilégio trabalhar neste Hospital, gosto muito de trabalhar aqui, e fazer esta ação “é uma forma de tocar no coração dos colaboradores e pacientes, ajudando também em sua recuperação. Fico muito feliz em saber que, de alguma forma, podemos ajudar, porque sabemos que todos já estão cansados e a pandemia já dura mais de um ano. Nos sentimos bem e deixamos bem também aqueles que ouvem”, diz o responsável pelo Almoxarifado.

A técnica de enfermagem, que está no Hospital Estadual desde sua abertura, conta que sempre se identificou com a filosofia do Hospital de Amor, porque viu na instituição, o que queria para sua carreira: a humanização e o cuidado com o paciente. “No momento, vivenciando o dia a dia da pandemia, levando para casa todas as dores pela perda de pacientes e pelo sofrimento que eles estão passando, poder levar a música até eles, vai além do cuidado do corpo, torna-se cuidado da alma, que é o que todo mundo precisa para seguir em frente, além de muita força”, destaca Bruna Menezes Silva.

Já Daniel Tuissi driblou a timidez para apresentar-se aos colegas. Para ele, “a música é um ato que se manifesta pelos afetos da alma. Levar essa alegria, do fundo da alma, para os pacientes é benéfico tanto para eles, como para nós. Essa empatia vem do prazer em tocar e fazer o bem para o próximo, por isso, somos o Hospital de Amor. Para nós, transmitir amor, é gratificante”, destaca o técnico da Engenharia.

A filosofia é humanização

“Essa iniciativa parte de nós, como colaboradores, porque é nossa filosofia. Há 14 anos faço parte do Hospital de Amor, e desde que entrei, vejo estas ações sendo realizadas com frequência, porque faz parte do que acreditamos”, ressalta Everton Zem, sobre a filosofia de humanização do Hospital de Amor.

Além da apresentação musical, todos os dias são feitas ações para tornar mais leve a rotina dos profissionais. “Na semana passada, entregamos cartas aos colaboradores, feitas por alunos do Hospital Infanto-juvenil, de Barretos; nesta semana, por vários dias, Josimar Ferreira, do Projeto Musical Gênesis, apresentou-se aos funcionários no refeitório, animando o horário de almoço. São momentos abençoados por Deus”, afirma Leonardo de Matos.

Porém, mesmo com todo trabalho de humanização, oferecendo apoio aos funcionários, o Hospital Estadual registrou 11 demissões nas últimas semanas. “São funcionários excelentes, com alto padrão de atendimento e que nos farão muita falta. Porém, eles estão exaustos, preferiram cuidar da família e buscar outras fontes de renda, porque não conseguem mais ver tantos pacientes sofrendo, pedindo ajuda, tantas mortes e uma fila de internações diária de mais de 40 pacientes aguardando leitos de UTI. O clima é pesado e o esgotamento emocional falou mais alto, por isso, não conseguimos mantê-los na instituição”, lamenta o gerente de enfermagem.

Em uma semana, Bebedouro soma mais 9 mortes por Covid

Ocupação de UTI no Hospital Estadual segue em 100%. Novos 10 leitos devem ser abertosna próxima semana.

De acordo com os dados epidemiológicos do município, Bebedouro já contabiliza 112 mortes por Covid-19, desde março de 2020, registrados até sexta-feira (9). São nove mortes em uma semana, já que na quinta-feira (1º), eram 103.

As vítimas fatais mais recentes são dois homens, de 67 e 86 anos, que faleceram no Hospital Estadual e UPA 24h, respectivamente, além de duas mulheres, de 81 e 60 anos, que morreram na UPA e no Hospital Nossa Senhora, em Barretos. Há ainda outros dois óbitos inseridos no boletim, cujas informações ainda não foram divulgadas.

A cidade soma 4.713 pessoas infectadas pela Covid-19 desde março de 2020, sendo que 4.110 residem em Bebedouro e 603 em cidades da microrregião. O boletim aponta ainda que 4.565 pacientes já estão recuperados (3.965 de Bebedouro e 600 da região) e 36 pessoas estão infectadas, cumprindo isolamento domiciliar. Outros 222 estão sob suspeita da doença.

A ocupação de leitos em Bebedouro, no Hospital Estadual, está em 100%, com 20 pacientes em estado grave. Novos 10 leitos devem ser abertos na próxima semana. Na Unimed, são 81,8% dos 11 leitos, ocupados. Há ainda cinco internados em estado grave na UCE (Unidade de Cuidados Especiais) da UPA 24h e quatro em Barretos.

Nas enfermarias de hospitais da cidade são 18 internados no Hospital Estadual, nove no Municipal, quatro na UPA e 10 na Unimed. As internações não constam do total de infectados.

Publicado na edição 10.569, de 10 a 13 de abril de 2021.