O invisível quer acabar com o predador

José Renato Nalini

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O tema único em 2020 é a pandemia. O ano que parecia icônico, a sugestiva repetição de algarismos, mostrou-se uma reiteração de um único assunto. Covid-19, coronavírus, confinamento, higienização, máscara, isolamento social, “fique em casa” e “lave as mãos”, competindo com álcool em gel. Quem é que não está cansado desses verbetes?
A verdade é que ninguém sabe exatamente como a contaminação se propaga. Há indícios fortes de que o vírus permanece em superfícies durante horas e que levar as mãos ao nariz, olhos ou boca faz com que ele penetre no corpo e cause estrago.
Preocupa ainda mais saber que a infecção pode se dar pelo ar. As partículas ficam dispersas e a distância de metro e meio é insuficiente para inibir a transmissão. Insegurança, medo, pânico, tudo simultaneamente nesta fase trágica. Para quem quer fugir a tudo isso, é mais fácil acreditar que a enfermidade só é perigosa para idosos e que o “novo normal” já está aí, convidando-nos para retomar a rotina.
Embora provocativa, achei interessante a versão do escritor italiano Sandro Veronesi. Ele diz que a Covid-19 não é causada por um vírus, mas resulta de um anticorpo da natureza. Esta, maltratada pelo homem, criou uma defesa exatamente para combater quem a devasta. Ou seja: o vírus que acabar com o predador, pois é ele quem faz dos rios verdadeiras fossas, acaba com a biodiversidade, queima a Amazônia, anistia os infratores que avançam pelo remanescente da Mata Atlântica, poluem água, solo e ar, aquecem o planeta e apressam – de forma inclemente – o fim da espécie e de sua aventura pela Terra.
Um sintoma de que o minúsculo vírus, invisível a olho nu, está pretendendo isso, é o número crescente de mortos. E um discreto retorno da natureza, com fauna e flora a ignorar a peste e a se manifestar até com certa alegria. Em contraponto com a frustração do bicho-homem.
Seria bom se as pessoas se comovessem e fizessem exame de consciência para chegar à conclusão de que todos somos responsáveis pelo extermínio da vida saudável neste pequeno corpo galáctico. Ocorre que o coração humano é empedernido, teimoso e ignorante. Continuará a insanidade e a insensatez, com o aplauso dos que tiram proveito momentâneo desse uso criminoso dos recursos naturais e não têm qualquer compromisso com as gerações do amanhã.

 

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2019-2020).

 

Publicado na edição nº 10526, de 17 a 20 de outubro de 2020.