O primeiro beijo de Pedro e Adriana simboliza amor, mas também a separação que já começou

Marcos Pitta

0
58
O beijo veio - Pedro e Adriana vivem o primeiro beijo justamente quando tudo desmorona ao redor deles e é o começo do sofrimento do casal principal de Quem Ama Cuida. Foto (Manoella Mello/Globo).

O primeiro beijo de Pedro e Adriana em Quem Ama Cuida acontece exatamente quando deveria acontecer. Não porque o público esperava por ele há semanas, mas porque os personagens chegaram ao limite das próprias dores.

A condenação de Adriana a 12 anos de prisão pela morte de Arthur representa a coroação dos vilões da novela. Pilar consegue destruir a rival. Ademir vence mais uma causa e reforça sua imagem de advogado brilhante. Pedro, por sua vez, assiste à mulher que ama ser condenada sem sequer ter tido a oportunidade de defendê-la. Foi afastado do caso pelo próprio pai, uma sequência de derrotas.

O que torna a cena tão interessante é que ela não surge como recompensa romântica, mas como consequência dramática. Pouco antes da sentença, Adriana admite que, se pudesse viver aquele amor, seria a mulher mais feliz do mundo. Pela primeira vez, ela se permite reconhecer o que sente e, mais importante, se permite acreditar que também é amada.

Esse detalhe faz diferença. Neste começo de novela, Adriana perdeu tudo: o marido, a estabilidade e agora a própria liberdade. Pedro também chega ferido a esse momento. Foi enganado por Bruna, viu a mentira da falsa gravidez desmontar sua vida e agora descobre que o próprio pai é capaz de manipular um julgamento para alcançar seus objetivos.

Os dois chegam ao beijo destruídos e isso dá ainda mais profundidade ao casal construído por Walcyr Carrasco e Claudia Souto. Antes de sofrerem como casal, Pedro e Adriana sofreram individualmente. Os autores deram trajetórias próprias aos personagens. Construíram dores, conflitos e perdas que não dependiam do romance.

O beijo não simboliza apenas a confirmação do amor, mas também uma ruptura. O público já sabe que a prisão de Adriana criará distância quase impossível de ser superada. Pilar continuará agindo para separar os dois. E a própria Adriana, movida pelo amor, tentará afastar Pedro para protegê-lo.

Por isso a cena emociona. Não porque entrega felicidade, mas porque entrega esperança no exato momento em que tudo desmorona. Chay Suede e Letícia Colin compreendem perfeitamente essa dinâmica. Os dois possuem química na leveza, mas impressionam ainda mais no sofrimento. O amor existe. A tragédia também.

E é desse encontro que nasce a força do casal. Quando o beijo termina, não temos a sensação de que a história começou, mas de que ela acaba de ficar muito mais difícil.

Publicado na edição 11.014, sábado a sexta-feira, 20 a 26 de junho de 2026 – Ano 102