O que o macaco comeu

Wagner Zaparoli

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Podemos afirmar que ainda somos completos ignorantes em relação ao que a natureza poderia nos fornecer em termos de medicamento. Os números não negam: das 500 mil espécies de plantas de nosso planeta, somente 5% a 10% foram exploradas em suas propriedades biológicas ou químicas.

A contar que mais da metade dos medicamentos têm origem natural e que os princípios ativos provêm de vegetais, produtos marinhos ou microorganismos, concluímos que existe uma vastidão quase infinita de possibilidades de novos medicamentos, caso consigamos explorar efetivamente e responsavelmente a natureza.

Embora o potencial seja inegável, cientistas e laboratórios acenam com grandes dificuldades para encontrar e isolar moléculas que permitam a criação de novos medicamentos. Farmacologistas apelam até para estudos etnológicos, mas os curandeiros que detém boa base de conhecimento se recusam terminantemente a entregar as suas receitas milenares.

Assim sendo, qualquer caminho encontrado no sentido de desvendar a natureza em prol da medicina humana é muito bem vindo.

O segredo dos macacos

Sabrina Krief, veterinária de formação, doutora em ecologia e química, e pesquisadora do Instituto de Química das Substâncias Naturais em Gif-sur-Yvette, relatou há alguns anos na revista Scientific American, algumas histórias interessantes acerca da utilização da natureza por alguns tipos de macacos.

Uma delas faz referência a chimpanzés de Gombe na Tanzânia que engoliam sem mastigar folhas rugosas e cobertas de pelos da Aspilia mossambicensis, uma planta herbácea. O interessante nesse comportamento era que, ao contrário do habitual em que o chimpanzé tira todas as folhas de uma única vez e as enfia na boca imediatamente, nesse caso eles selecionavam as folhas uma a uma, as enrolavam com a língua e as engoliam.

Mais tarde essas folhas foram encontradas inteiras e intactas nas fezes dos macacos. Quando foram analisadas em laboratório, revelaram uma infestação parasitária. A conclusão dos pesquisadores foi a de que as folhas do Aspilia mossambicensis tinha um efeito vermífugo mecânico, que ao passar pelo intestino, irritavam a sua mucosa favorecendo a expulsão completa dos parasitas.

Uma outra história vindo também da Tanzânia descreve o comportamento de um chimpanzé fêmea que mostrava pouca atividade e tinha sintomas de doença intestinal. Não comia nada a não ser talos de Vergonia amydalina. O estranho é que em condições normais esses animais não comem esse tipo de arbusto, pois é muito amargo. Vinte e quatro horas depois do consumo, o chimpanzé tornou-se ativo, recobrando o seu apetite novamente. Analisados posteriormente por químicos, a planta mostrou-se rica em compostos parasitários, alguns deles nunca isolados e utilizados na medicina anteriormente.

Uma terceira história dá conta de um chimpanzé jovem macho que depois de uma briga ficou com uma grave ferida. Durante uma semana ele consumiu talos de Acanthus pubescens, uma planta espinhosa com 2 metros de altura utilizada por curandeiros para o tratamento de infecções cutâneas e dermatoses. Passado algum tempo, a sua ferida cicatrizou e ele ficou pronto para outra briga.

O que essas histórias nos contam de fato? Qual o interesse dos pesquisadores em descobrir os segredos medicinais dos macacos?

De acordo com Krief, em primeiro lugar, a observação dos chimpanzés permite selecionar plantas que jamais foram estudadas e descobrir moléculas que têm propriedades farmacológicas interessantes; segundo, dada a proximidade filogenética entre o homem e o chimpanzé, esses estudos poderiam nos fazer compreender o aparecimento da medicina, embora seja um grande desafio; terceiro e último, estudando diferentes grupos de macacos na utilização das folhas para o automedicamento, estarão estudando o aspecto cultural da automedicação e respondendo, por exemplo, como essa técnica passa de geração para geração, de grupo para grupo, de indivíduo para indivíduo.

Infelizmente nem tudo é festa: se a ciência corre fervorosamente atrás de novos conhecimentos, a economia e suas razões tendem a devastar rapidamente a natureza e todos os seus elementos.

Muito conhecimento o homem já perdeu em função da degradação da natureza realizada, e muito ainda perderá se iminentemente não se conscientizar de que o único caminho para o futuro da humanidade é a manutenção da sustentabilidade do nosso planeta. Façamos a nossa parte, então.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação). 

Publicado na edição 10.650 – quarta, quinta e sexta-feira – 9, 10 e 11 de março de 2022.