O que você tem feito pela sua cidade?

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Seja na fila do banco, na feira ou no ponto de ônibus – é muito comum presenciar e/ou se engajar em uma conversa informal sobre os problemas do nosso país ou da nossa cidade. Com argumentos na ponta de língua, todos nós temos algo a dizer sobre a comunidade em que vivemos. Ruas esburacadas, lixo no chão, depredação do patrimônio público, trânsito violento, calor insuportável, falta de água, falta de investimento em serviços públicos, … e tantos outros problemas que vivenciamos e tentamos superar diariamente. Mas será que o uso do verbo “superar” na frase anterior está correto? Superar também é sinônimo de vencer ou solucionar. Será que, coletivamente, estamos tentando vencer ou solucionar os nossos problemas, ou apenas estamos nos acostumando com eles. Proponho uma reflexão: o que realmente estamos fazendo para solucionar os problemas que vivenciamos na nossa comunidade? E qual tem sido nosso papel para mudar nossa realidade?

Com o individualismo, a acomodação e com o inexistente exercício da cidadania presentes em muitos de nós brasileiros, muitos problemas que vivenciamos acabam não sendo resolvidos e, pior que isso, acabam desenvolvendo raízes na nossa sociedade. E por que isso? Muitos de nós esperam uma solução mágica cair do céu (ou do Estado), e assim nos retiramos da responsabilidade de fazermos parte da solução desses problemas. Mas qual é nosso papel? O papel do cidadão, dentro dos seus direitos e deveres constitucionais, é participar ativamente da construção de uma comunidade melhor para todas e todos, e cobrar efetivamente, através de sua atuação e comparecimento em espaços públicos, ações e atitudes das autoridades eleitas para os cargos administrativos e legislativos.

Mas o que nos “impede”, do ponto de vista social, de construirmos uma comunidade melhor para todos e todas? Aqui vão três exemplos de problemas: primeiramente, não temos o sentimento de comunidade em nossas cidades. Vivemos em uma sociedade ainda muito marcada pelas desigualdades de gênero, racial e de classe, e isso cria um sentimento de não pertencimento em muitos indivíduos. As barreiras que são levantadas pelas estruturas dessas desigualdades, impedem que se instaure o sentimento do pertencer coletivo à esta comunidade e aos espaços de discussão e participação que estão localizados no centro. Isso impede que todas as vozes (em sua pluralidade em experiências e demandas) sejam ouvidas e que toda a comunidade seja contemplada com as ações que partem do centro. A autora e intelectual estadunidense Bell Hooks (2015) fala sobre a relação entre margem e centro, e como indivíduos marginalizados, pela sua identidade e realidade, se sentem barrados de participar e se sentir parte do centro. Em segundo lugar, de maneira geral, as pessoas não sabem como lidar com aquilo que é público. O público, muitas vezes, é visto como algo que não pertence a ninguém, e que por esta razão, não se reconhece nele algo de valor ou não se cria conexão com ele, e consequentemente não se cuida dele. Quer exemplos? As vias, praças, banheiros e veículos públicos, que são constantemente alvos de depredação e usados como lixo. Em Bebedouro, o nosso lago artificial é constantemente poluído com isopores e plásticos, que flutuam próximos à comporta (dentre tantos outros exemplos). A questão é não haver o reconhecimento de que o “público” pertence a todos, e por isso deve ser defendido e preservado por todos. Em terceiro, o indivíduo se exime da responsabilidade de cuidar do que é público, seja por descompromisso, por egoísmo ou pois “se os outros não o fazem, por que eu devo fazê-lo?”. É importante ressaltar que cada ação importa nesse processo! Não há esforço perdido quando se busca construir uma sociedade mais consciente. Todos nós precisamos reconhecer nosso papel na sociedade, como cidadãos. E como cidadãos, agirmos fazendo pressão para que todos façam parte desse esforço na solução e superação dos problemas cotidianos desta sociedade.

O que devo fazer? Compartilhe ideias e soluções com familiares, amigos e colegas de trabalho. Seja no ponto de ônibus, na escola ou na Câmara Municipal. Seja e inspire a mudança da nossa comunidade. Conscientize as pessoas sobre os impactos negativos da nossa cultura de descompromisso com aquilo que é público. Exercite a cidadania. Você não estará sozinha ou sozinho nessa luta por uma comunidade melhor para todas e todos. E pergunte-se sempre: “O que eu tenho feito pela minha cidade?”.

“Colaboração de Arthur Fachini, formado em Relações Internacionais pela Universidade de Ribeirão Preto, Unaerp; ativista pelos Direitos Humanos e igualdade de gênero; e um dos ganhadores do prêmio ‘Gold Global Citizen Award’ na Irlanda. Atualmente é responsável pelo projeto de educação complementar “Defensores Globais” na Escola Estadual Abílio Manoel.”