Onda verde chegará ao Brasil?

José Renato Nalini

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Enquanto o G20 reitera a urgência de se salvar o Acordo de Paris, os ecologistas alemães se tornam a segunda força política do Estado e os sinais do aquecimento global continuam cada vez mais intensos, o Brasil parece anestesiado. Mas é uma anestesia paralisante, maléfica. Faz com que não haja reações ao vandalismo que continua a abater florestas.
No Acre, apurou-se uma destruição de mais de 600 hectares, 81% a mais do que no mesmo período do ano passado. Fiscais do Instituto Chico Mendes detectaram a destruição de árvores milenares. As últimas nogueiras, com diâmetro de três metros e mais de trinta de altura, foram dizimadas e convertidas em tábuas comercializadas por gente sem consciência ambiental.
Não é melhor a situação paulista. O litoral de São Paulo a Santa Catarina registrou número recorde de animais encontrados mortos. Só de julho a setembro de 2018, chegaram às praias 15.547 exemplares de fauna ameaçada de extinção. Destes, apenas 801 com vida. Os demais exterminados. São aves com múltiplas fraturas nas asas, vítimas de agressões. Tartarugas sem o casco, leões marinhos com balas alojadas no corpo. Pequenos golfinhos mutilados e encalhados na praia. Mais de dez mil pinguins mortos.
Os pesquisadores que recolhem essa fauna sem vida comparam a ocorrência a um apocalipse. Lobos marinhos, focas e baleias. As causas são muitas mas não é a natureza que está matando. É o bicho mais cruel e violento: o bicho-homem.
Em pleno século XXI, continua a prática predatória. Caçadores paulistas chegavam a pagar tributo anual por liquidarem mais de 250 mil peles de animais. Essa ainda era a “caça” legal. Se avaliado o abate ilegal, o extermínio chegaria a meio milhão de mamíferos mortos a cada ano.
Inacreditável que o ser humano se considere o “rei da natureza” e seja tão inclemente em relação às demais espécies. Desrespeita a lei natural que une qual uma cadeia formada de elos interligados, todas as espécies vivas do planeta. Sabe-se que o rompimento de um elo interfere na continuidade da existência do outro. Ainda assim, a humanidade parece haver escolhido o suicídio coletivo como fim da aventura terrestre. Fim que pode estar mais próximo do que se pensa. Nem haverá tempo de chegar aqui a “onda verde” que dá esperança a outros povos mais civilizados.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Uninove, autor de “Ética Geral e Profissional” e Presidente da Academia Paulista de Letras).

Publicado na edição de nº 10418, de 14, 15 e 16 de agosto de 2019.