Os crimes de Valongo

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“A primeira loja de carne em que entramos continha 300 crianças. O mais velho podia ter 12 anos e o mais novo, não mais de 6. Os coitadinhos ficavam agachados num armazém. O cheiro e o calor da sala eram repugnantes. O termômetro indicava 33°C e estávamos no inverno” (relato de viajante inglês em 1822 na cidade do Rio de Janeiro)
Os regimes escravocratas e o tráfico negreiro provocaram, durante séculos, um dos maiores deslocamentos humanos já registrados na história da humanidade. Somente entre os séculos XVI e XIX cerca de 12,5 milhões de africanos foram retirados de sua terra natal e levados como escravos para a América e Europa. Dos 10,7 milhões que sobreviveram à viagem, boa parte sucumbiu diante da falta de alimentos e das doenças que infestavam as cidades portuárias onde os navios atracavam.
A história brasileira registrada em livros, principalmente os didáticos, direcionados às crianças e adolescentes, costuma abordar a escravidão pelo viés da produção. Faço um parêntese nessa história para mostrar como a ciência integrada por historiadores, arqueólogos, geneticistas e patologistas está dando conta de um dos maiores crimes já cometidos na esfera humana: a escravidão.

Reabrindo feridas
Em meio às obras para as olimpíadas de 2016, a região portuária do Rio de Janeiro tem sido palco de inúmeras surpresas históricas. Em 1996, durante reforma em uma casa naquelas cercanias, ao abrirem sondagens para os alicerces operários descobriram milhares de dentes e fragmentos de ossos humanos. Já ao final de 2011, com a ampliação das reformas próximo ao obelisco do Cais da Imperatriz, esqueletos, arcadas dentárias e inúmeros fragmentos humanos emergiram como num assombro a uma época de muito sofrimento e morte para aqueles que chegavam ao Rio sob a tutela do regime.
O antigo Cais do Valongo, porto por onde passaram cerca de 1 milhão de escravos vindos de várias regiões da África, foi criado para tirar os negros do centro do Rio, já que eram vistos como ameaça à saúde e um perigo à ordem pública.
Depois de viajarem 60 dias nos negreiros sem a mínima condição de higiene e alimentação, muitos escravos morriam ao aportarem na cidade. Eram enterrados em valas comuns como animais. Um viajante de nome Carl Seidler fez o seguinte relato em 1834: “Sem esquife e sem a menor peça de roupa são atirados numa cova que nem tem dois pés de profundidade. Levam o morto e o atiram no buraco como a um cão morto, põem um pouco de terra em cima e se alguma parte do corpo fica descoberta, socam-no com tocos de madeiro, formando um mingau de terra, sangue e excrementos”.
Consoante à dor física, cintilava a dor espiritual: a cultura africana previa o ritual do sepultamento como passagem de quem parte ao encontro de seus ancestrais. Sem o ritual o morto estaria condenado à solidão eterna.

Mantendo-se a memória
Nós, brasileiros, por desígnio da história, estamos humanamente vinculados à escravidão e a toda esfera de acontecimentos que a permeou por séculos afora. Se para nós, hoje, se torna impossível reverter os fatos e acontecimentos atrozes de um passado maculado, ao menos devemos manter a nossa memória altiva e capacitada para entender claramente o que representou o regime escravocrata além das circunscrições econômica e produtiva.
Milhões de vidas foram ceifadas sem dó ou piedade, com patrocínio de uma elite que enxergava somente a sua própria prosperidade e riqueza, inserindo-se aí, a corte real.
A oportunidade que as obras do Rio de Janeiro nos dão deve ser muito bem aproveitada para que reflitamos exaustivamente sobre a verdadeira realidade do que foi um dia o nosso país. Isso jamais pode ser esquecido.
Em tempo, acerca do relato do início do texto, além do cais, o complexo de Valongo abrigava 50 “lojas de carne” – locais onde negros recém-chegados eram negociados. Dificilmente um negro não negociado sairia dali com vida. O local serviu de inspiração, não tão ousada, para o pintor francês Jean Baptiste Debret (1768 – 1848), que retratou o local em uma pintura feita entre 1834 e 1839.