Os hobbits da vida real

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No mundo das fantasias hollywoodianas “hobbits” são pequenas criaturas que vivem no mundo ficcional da Terra Média e da Montanha Solitária, entre magos e dragões, realizando missões arriscadas e emocionantes. O hobbit Bilbo Baggins, o mago Gandalf, o anão Thorin II e o dragão Smaug são alguns dos personagens que fizeram do britânico J. R. R. Tolkien um dos mais aclamados escritores do século XX, principalmente depois de suas obras “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit” terem sido transformadas em campeões de bilheteria por todos os cinemas do mundo.
Não tão famosos quanto os hobbits de Tolkien, mas não menos intrigantes são os hobbits de Flores, uma remota ilha indonésia banhada pelos mares de Savu e das Flores. Em 2003, em uma caverna chamada Liang Bua, foi encontrado o esqueleto de uma mulher com apenas um metro de altura, pesando entre 30 e 35 Kg e com 30 anos de idade. Inicialmente os arqueólogos a batizaram de Sundanthropus floresianus, dado que a haviam encontrado na região de nome Sunda, para na sequência, a incluírem em nosso gênero rebatizando-a de Homo floresiensis.

As primeiras impressões

A despeito das escavações em Liang Bua iniciarem-se em 2001 de forma amena, sem muitos investimentos e pretensões, os achados arqueológicos ali se mostraram muito interessantes. Logo nos primeiros anos os arqueólogos encontraram dragões-de-komodo, estegodontes (elefantes anões) e cegonhas gigantes. Tempos depois foi a vez do crânio, e posteriormente, de partes relativamente conservadas de alguns esqueletos do nosso floresiensis. Junto com os achados surgiram as polêmicas, já que partes do floresiensis, como o crânio, demonstravam traços modernos que até o levaram a ser incluído no gênero homo, e partes que demonstravam uma ancestralidade remontando o australopiteco, extinto há dois milhões de anos sem ter deixado o continente africano.
Além desse ponto díspar surgiram outras dúvidas acerca da sua existência, como sua estrutura corpórea diminuta e sua contemporaneidade com o H. Sapiens.

Muitos estudos, poucas respostas

Os estudos da última década realizados no sítio em Flores endereçaram algumas dessas dúvidas, embora nada em definitivo. Acreditava-se inicialmente que o H. floresiensis havia sido extinto há cerca de 12 mil anos. Nessa época o homem anatomicamente moderno já havia conquistado o planeta e desenvolvido a agricultura. Poderia até ser considerado a causa da extinção do floresiensis, não fossem pesquisas bem recentes da geologia da caverna Liang Bua que indicaram que a extinção ocorreu anteriormente a esse período, por volta de 50 mil anos atrás, o que exclui o H. sapiens como vilão da história. Mas não há respostas conclusivas sobre o tema.
Quanto ao pequeno tamanho (para se ter ideia, o cérebro do H. floresiensis tem medida semelhante ao cérebro de um chimpanzé moderno) existem duas hipóteses: a mais aceita pela comunidade científica recai sobre o nanismo das ilhas, conceito usado para caracterizar seres isolados geograficamente que não se desenvolvem muito por falta de predadores naturais no espaço em que vivem; a segunda hipótese, defendida por uma minoria de estudiosos, atribui o nanismo a algum tipo de problema de saúde, por exemplo, a microcefalia (tão em moda hoje em dia).
Mas, ambas são meras teorias que ainda carecem de mais estudos, evidências e provas a fim de representar algum modelo próximo dos acontecimentos verdadeiros da história ali vivida por essa espécie.
Até que isso venha acontecer, pesquisadores da evolução humana continuam com um belo desafio na mão, o que não é novidade para quem vive nesse grande quebra-cabeça de pequenos e preciosos achados arqueológicos.

Publicado na edição nº 9987, de 19 e 20 de maio de 2016.