Pelos ombros de um gigante

Wagner Zaparoli

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“Um homem a quem foi dada oportunidade de abençoar o mundo com uma grande idéia criativa não precisa de louvor da posteridade. Sua própria façanha já lhe conferiu uma dádiva maior”.

A frase acima foi proferida por Einstein em 1948, numa cerimônia da Academia de Ciências dos EUA, em homenagem ao físico alemão Max Planck. Einstein o fez porque foi graças a Planck que ele e vários cientistas como o francês Poincaré, o dinamarquês Niels Bohr e o inglês Paul Dirac conseguiram construir os pilares da física moderna. Provavelmente não estaremos errando ao dizer que Planck foi para a física o que Imannuel Kant foi para a filosofia: um construtor de bases.

A vida

Max Karl Ernest Ludwig Planck nasceu em abril de 1858, em Kiel, Alemanha. Embora tenha se mudado para Munique antes de completar 10 anos, sempre considerou Kiel o seu verdadeiro lar, uma cidade que nunca deixou o seu coração.

Mas Munique foi fundamental em sua vida, pois foi lá que ele despertou para as ciências, principalmente as físicas, através dos estímulos de seu professor da escola secundária Hermann Muller. Lá ele também se graduou, se doutorou, e se tornou professor universitário.

Embora esse cargo fosse destaque para um garoto de pouco mais de vinte anos, não era remunerado, e com a oportunidade Planck voltou à sua querida Kiel onde exerceu por quatro anos, o cargo de professor extraordinário de física teórica.

A relevância científica

Passados os quatro anos em Kiel, Planck novamente deixou sua terra natal para enfrentar outros desafios e sedimentar sua carreira científica, embora ainda em tenra idade, mas com relevante experiência. Desta vez o seu destino seria Berlim, mais precisamente a Universidade de Berlim, onde foi professor pelo resto de sua vida.

Em paralelo à carreira acadêmica, Planck fazia estudos sobre termodinâmica donde inteligentemente obteve uma equação que hoje é conhecida como a “equação de radiação de Planck”. A dedução da equação o obrigou a renunciar a conceitos até então considerados dogmas da física clássica e o fez introduzir uma nova idéia denominada “quanta de energia”. Como já era esperado, ao publicar suas idéias e teorias houve muita resistência, pois contrariar dogmas era tão difícil na ciência quanto na religião naquela época.

Somente 13 anos depois, com o trabalho de sucesso do físico Niels Bohr é que as teses de Planck foram aceitas. Bohr as usou em seu trabalho de forma a provar estarem elas corretas. Assim, em 1918 Max Planck viria a receber o Prêmio Nobel de Física, reconhecimento mais do que justo para esse personagem que deu alma à física moderna.

Das tragédias nascem os gigantes

A família foi sem dúvida a grande base para a formação do caráter imaculado de Planck, e ele sabia disso. Tanto que formou uma bela família com a esposa Marie. Tiveram quatro filhos: Erwin, Karl, Margarete e Emma.

A despeito de seu sucesso profissional, no entanto, a cruz que Planck começara a carregar aos seis anos, quando vivenciara as tropas prussianas e austríacas marchando sobre o solo de sua cidade natal, ainda iria pesar muito, a começar pela morte relativamente precoce de Marie, em 1909. Depois foi a vez de Karl, morto em combate em 1916. Em seguida foram as duas filhas, Margarete em 1917 e Emma em 1919, coincidentemente ambas por complicações no parto.

Ainda no trilho dos descaminhos, sua casa foi completamente destruída em 1944, após um bombardeio aéreo. Ele, na ocasião, perdeu todas as anotações científicas (você, caro leitor, pode imaginar o que é perder uma vida inteira de pesquisas?).

Mas, de todas as desavenças do destino nada iria se igualar à grande tragédia que o tomou, no início de 1945. Seu primogênito Hermann foi executado pela polícia nazista acusado de ter participado de um complô para matar Hitler. Embora Planck tenha despendido muita energia para tentar reverter a situação do filho, não conseguiu, e desta tragédia ele jamais iria se recuperar. Morreu em 1947, tentando reconstruir a arrasada ciência alemã pós-guerra.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição 10.572 de 21 a 23 de abril de 2021.