Pregando peças no destino

Wagner Zaparoli

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“Qualquer criança me desperta dois sentimentos: ternura pelo que ela é e respeito pelo que poderá vir a ser”
A frase acima cunhada por Louis Pasteur bem que poderia lhe caber como uma luva enquanto criança. Nascido em 1822 jamais demonstrara qualquer brilhantismo na escola, pelo contrário, encerrou os estudos básicos com notas modestas e desinteressantes, um verdadeiro engodo ao futuro destino daquele que seria considerado o pai da microbiologia e o gênio das vacinas.
Aliás, a ciência e seus cientistas gostam de pregar peças no destino. Lembram-se de Einstein? Ele também teve sérios problemas escolares enquanto criança. Depois de adulto revolucionou a física, a mente dos físicos e a todos nós com suas fabulosas teorias.
O despertar de Pasteur para a ciência e para a sorte da humanidade provavelmente aconteceu após sua entrada para a universidade, onde todos os vínculos paternalistas e protetores de professores do colégio desapareceram ou diminuíram sensivelmente. E foi fulminante: já em 1947 obtinha o seu doutorado na Escola de Física e Química em Paris e em 1948 anunciava as suas primeiras descobertas sobre a assimetria dos cristais. De menino medíocre a doutor em uma jornada avassaladora.

Guerra contra os micróbios
Grande parte daqueles que bebem o leite pasteurizado não tem a menor idéia de como funciona o processo de pasteurização, para que serve e qual a origem do termo. Na verdade tudo começou com um grande problema de produção nas vinícolas e cervejarias da França. Muitas estavam a ponto de fechar as portas porque já não conseguiam mais acertar a composição das bebidas: o vinho, depois de fabricado, rapidamente se transformava em vinagre; a cerveja seguia o mesmo caminho e também perdia o seu ponto de equilíbrio.
Em 1856 Louis Pasteur já era professor e reitor da Faculdade de Ciências de Lille. Como o pior estava para eclodir, os produtores de vinho e cerveja convidaram o então professor doutor para analisar o caso. E ele o fez: observou que microorganismos no ar e não no vinho ou na cerveja, como muitos pensavam, eram a fonte dos problemas. Para contornar tais problemas ele sugeriu uma solução simples: aquecer as bebidas recém-fabricadas a uma temperatura entre 58ºC e 75ºC e resfriá-las rapidamente em seguida; nenhum micróbio poderia sobreviver a esse processo e um grande problema econômico estaria resolvido.
Essa solução que Pasteur aplicou à época (a história diz que Nicolas Appert já a havia utilizado em 1795) é a base do atual processo de pasteurização para a preservação dos alimentos.

Divinas vacinas
Em 1865 algumas regiões da França estavam sendo castigadas por surtos de cólera que infectavam os aviários e matavam inúmeras galinhas. Como não poderia deixar de ser, Pasteur foi mais uma vez convidado a procurar as causas e a solução que impedisse a mortandade desvairada.
Sua primeira ação foi recolher e guardar amostras de bactérias que contaminavam as galinhas. Observando-as tempos depois, verificou que o número de bactérias havia diminuído, talvez por já estarem velhas. Ele então as pegou e as injetou em duas galinhas que adoeceram mas não morreram. Foi o primeiro passo para a criação das vacinas.
Numa segunda etapa Pasteur voltou a injetar uma quantidade maior de bactérias nas mesmas galinhas e em outras escolhidas aleatoriamente. Todas morreram, com exceção das duas primeiras, que estavam literalmente imunizadas com aquela primeira pequena dose de bactérias. Estava criado o processo de vacinação.
Cabe observar, entretanto, que Pasteur só conseguiu chegar a esse processo depois de conhecer o princípio da vacinação do médico inglês Edward Jenner (1749 – 1823).

O medo da raiva
Houve um tempo no mundo em que a raiva era uma doença que atemorizada a todos só de ser mencionada, dado o perigo que os animais infectados com o vírus representavam. A simples mordida de um desses animais selava o destino das pessoas à morte certa, pois não havia nenhum remédio com base científica ou metafísica que pudesse combater a doença.
Em 1880, Pasteur começou a estudar essa doença e em 1885, tendo já obtido sucesso em animais, foi forçado a utilizar sua vacina em um menino de nove anos a pedidos incontinentes de uma mãe desesperada. O menino se chamava Joseph Meister e havia sido mordido por um cão raivoso. Depois de receber o tratamento, o menino se recuperou do problema e foi considerado o primeiro paciente a receber o tratamento de Pasteur contra o vírus da raiva, embora histórias de bastidores digam que Pasteur já havia testado o medicamento em duas outras pessoas que não teriam sobrevivido.

Vida até a morte
Embora tenha passado por acidentes vasculares cerebrais que o deixaram com sequelas motoras, Pasteur chegou aos 70 anos com muita energia e sempre propenso ao trabalho. Alguns anos antes ele havia fundado o Instituto Pasteur, seu maior legado à comunidade científica da França e do mundo; em 1892 comemorou o seu jubileu na Universidade de Sorbonne em Paris, com a presença do ilustre presidente da França; e em 1894 vivenciara a descoberta da vacina contra a difteria nos laboratórios de seu instituto. Foi uma verdadeira e rica jornada que terminou em 1895 com a sua morte.
Certamente sua obra continuará a ecoar pelo mundo, principalmente em épocas difíceis como a que estamos vivendo. A ciência sempre será a razão absoluta da evolução da humanidade e Pasteur inegavelmente foi um de seus principais atores.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

 

Publicado na edição nº 10495, de 24 a 26 de junho de 2020.