Quando Bebedouro tirou os pés do chão: a saga do primeiro avião em 1921

José Pedro Toniosso

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Foto tirada em Itapetininga (SP), de 30 de maio de 1921, vendo-se ao centro o capitão João Alexandre Busse, um dos pilotos do primeiro avião em Bebedouro.Fonte: Wikimédia Commons.

Numa época em que o transporte era movido a tração animal ou pelo vapor das locomotivas, o ronco de um motor vindo do céu parecia ficção científica. Mas foi o que ocorreu em 1921, quando uma grande novidade colocou a população bebedourense em polvorosa: a cidade seria sobrevoada por um avião, possivelmente o primeiro, que depois faria aterrissagem em uma pista que estava sendo preparada e, mais ainda, permaneceria alguns dias proporcionando voos panorâmicos para aqueles que tivessem coragem para embarcar.

Muitas pessoas se empenharam para viabilizar a vinda: o agricultor Francisco Ricardo cedeu parte de sua propriedade para a construção de uma pista provisória para aterrissagem; o Cel. Raul Furquim e Dr. Oscar Werneck cederam trabalhadores para prepararem a pista; o comerciante Adriano Garrido se mobilizou para garantir a permanência dos aviadores na cidade; e até uma comissão foi organizada para recepcioná-los, sendo formada pelo Cel. João Manoel, Cel. Raul Furquim, Cel. Abílio Alves Marques e Dr. Pedro Pereira.

No final da tarde do dia 15 de março uma grande massa popular afluiu ao campo e com muita ansiedade esperou a chegada do aeroplano pilotado pelos aviadores tenente Reynaldo Gonçalves e capitão João Alexandre Busse. Eram cerca de 18 horas quando entusiasticamente foi visto um ponto no céu na direção norte, pois vinham de Barretos, num percurso que foi realizado em cerca de 20 minutos.

A descrição da aeronave não foi localizada, mas após serem feitas diversas evoluções sobre a cidade, ocorreu a aterrissagem e os visitantes foram recebidos com grande salva de palmas das autoridades e populares, com a entrega de ramalhetes de flores.

No dia seguinte foram feitas outras evoluções aéreas e alguns voos panorâmicos, dos quais participaram cidadãos bebedourenses. No entanto, quando era feita a aterrissagem do quarto voo, do qual participaram as professoras Zoraide Moraes e Secundina Paschoal, o avião chocou-se contra um tronco que havia no terreno e os passeios foram interrompidos.

Apesar do susto e do choque contra o tronco, as professoras Zoraide e Secundina saíram ilesas, tornando-se as primeiras protagonistas de um ‘pouso forçado’ na história local. O aparelho, no entanto, sofreu algumas avarias e precisou seguir até Campinas onde passaria por reparos.

Anos depois, em 13 de setembro de 1929, novamente a imprensa informava sobre a chegada de um aeroplano na cidade, cuja aterrissagem ocorreu no campo localizado na propriedade do Cap. João Cândido Alves, sendo recebido por grande e curioso público. No dia seguinte ocorreu uma verdadeira festa da aviação, com voos de demonstração e acrobacia, voos de surpresa e propaganda, além de passeios com passageiros locais.

A visita fazia parte da campanha patrocinada pelo Aeroclube de São Paulo para divulgar a aviação nas cidades do interior do estado. O aparelho “Bandeirante”, tipo Nieuport de 120 cavalos e 9 cilindros, era tripulado pelos pilotos João Carlos Gravé e Francisco Kramberger; o mecânico Rudolfo B., e o paraquedista Genaro Maddaluno.

 

Quem foi o Capitão Busse?

João Alexandre Busse, um dos pilotos do primeiro aeroplano em Bebedouro, é considerado um dos pioneiros da aviação brasileira. Nascido no Paraná em 1866, aos 18 anos ingressou na carreira militar daquele estado e teve rápida progressão na carreira, tendo participado como oficial de cavalaria em uma das batalhas na Guerra do Contestado, em 1912. Com a criação da Escola Paranaense de Aviação em 1918, foi incluído como representante da Força Militar. Dois anos depois se matriculou na Escola de Aviação da Força Pública de São Paulo, sendo reconhecido como “Acrobata do Espaço”, pelo excelente desempenho nas técnicas e manobras. Nos últimos dias de maio de 1921, após sua passagem por Bebedouro e outras cidades paulistas, decolou de São Paulo em direção a Curitiba, percurso considerado longo para a época, o que exigiu sua divisão em três etapas. Em 31 de maio, ao decolar de Itapetininga, no início da segunda etapa da viagem, o motor apresentou defeito, obrigando o piloto a fazer uma aterrisagem forçada, o que ocasionou a capotagem do avião e o arremesso do corpo do capitão Busse para fora, fato que resultou na sua morte, com apenas 35 anos.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense, www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 10.999 sábado a terça-feira, 11 a 14 de abril de 2026 – Ano 101