Guerra, gripe, geada e gafanhotos: 1918, o ano em que Bebedouro foi testada

José Pedro Toniosso

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O ano de 1918 não foi nada fácil para os bebedourenses. Não bastasse a continuidade da Primeira Guerra Mundial que, iniciada quatro anos antes, mantinha um clima de insegurança e de muita carestia, exigindo a convivência com alta de preços e falta de diversos produtos que eram importados, como o trigo, por exemplo, outras situações resultaram em mais preocupação e angústia.

Em meados daquele ano, conforme noticiou o Jornal de Bebedouro, “nas noites de 24 e 25 (de junho) caiu na cidade e em todo o município, fortíssima geada, que se repetiu mais branda na noite do 26”. Ainda de acordo com a matéria, “as lavouras do café, cana de açúcar, algodão e mamona, além das pastagens, sofreram extraordinário prejuízo, nada escapando do terrível fenômeno”.

A geada atingiu a maior parte do estado de São Paulo e entre nós danificou por completo as árvores frutíferas, como mangueiras, goiabeiras, abacateiros e outras, deixando aspecto desolador nos campos, matas, pomares e quintais. Com prejuízos calculados em cerca de 80% das lavouras, a situação era vista como calamitosa, tendo em vista os efeitos nas colheitas de café no período de um a dois anos, pelo menos, em uma época em que o município e o estado dependiam significativamente da cafeicultura.

Mal refeitos dos prejuízos das geadas, os agricultores tiveram que lidar com outro flagelo, que afetou várias regiões do estado. Conforme publicou o Jornal de Bebedouro, em 12 de outubro uma grande nuvem de gafanhotos passou por esta cidade, destruindo as novas plantações de cereais e do algodão recém-plantado.

Em outras edições o periódico informava sobre novas invasões de gafanhotos, sendo que a futura safra de feijão estava completamente prejudicada. Para combater a terrível praga a Secretaria da Agricultura enviara instruções para a Prefeitura e arsênico para distribuição aos agricultores interessados.

Não bastassem tantos problemas, ainda antes que a Grande Guerra fosse encerrada com o armistício em novembro, a cidade foi assolada pela epidemia da influenza hespanhola ou gripe espanhola, como ficou conhecida, que chegara em setembro por embarcações que vinham da Europa para as cidades portuárias brasileiras e que gradativamente foi se espalhando para o interior.

A imprensa local noticiou a chegada da doença e passou a publicar diversos alertas, procurando orientar sobre os cuidados necessários para evitá-la. Ao mesmo tempo, a municipalidade solicitava a colaboração da população e das entidades, inclusive com doações de valores e mercadorias para os moradores mais vulneráveis. Outra medida preventiva foi a suspensão das aulas do grupo escolar e das escolas estaduais.

A Loja Maçônica Justiça e Amor, o Centro Espírita do Calvário ao Céu e a Sociedade Italiana disponibilizaram suas dependências para prestação de assistência aos doentes, enquanto vários fazendeiros faziam doações de produtos de suas propriedades, principalmente de leite. A empresa funerária disponibilizou o carro fúnebre ao povo, e a Santa Casa de Misericórdia reservou parte de suas dependências exclusivamente para a internação dos atingidos pela gripe.

Após cerca de dois meses, a epidemia estava praticamente extinta, e a vida social aos poucos era normalizada. As casas de diversão e os cinemas recuperaram o movimento, os templos religiosos voltaram a ter grande frequência, e os concertos musicais no coreto do jardim resgatavam o numeroso público.

No campo, no entanto, os efeitos das geadas e dos gafanhotos ainda persistiriam por mais alguns meses, mas gradativamente a produção agrícola foi sendo restabelecida, gerando um clima favorável para a retomada da normalidade.

 

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense, www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 10.998 quinta a sexta-feira, 2 a 10 de abril de 2026 – Ano 101