Os dias em que Bebedouro parou diante das chamas: uma retrospectiva de alguns incêndios que marcaram nossa história

José Pedro Toniosso

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Em 1983, um dos maiores incêndios ocorridos na história de Bebedouro, resultou na completa destruição da filial da loja Nevoeiro. (Foto publicada na edição de 15 de junho de 1983 da Gazeta de Bebedouro e aprimorada com uso de IA).

Desde os primórdios, Bebedouro enfrentou episódios críticos em que as chamas desafiaram o controle humano. Conforme registros na imprensa, nas primeiras décadas do século passado, no auge da cafeicultura, ocorreram vários episódios em que incêndios resultaram na perda de café ou de instalações.

Em agosto de 1910, por exemplo, as labaredas iniciadas na máquina de beneficiamento na fazenda do coronel Valêncio de Barros, provocaram a perda de cerca de oito mil arrobas de café depositadas nas tulhas. Cinco anos depois, em outra propriedade rural, pertencente ao coronel Cherubin Franco de Campos, o fogo destruiu grande proporção de café, com vultosos prejuízos.

Com a expansão da área urbana, a ocorrência de incêndios passou a ser registrada também na cidade, tanto em residências como em estabelecimentos comerciais e industriais. Foi um tempo em que a resistência às labaredas dependia da ajuda da própria comunidade para apagá-las, nem sempre com sucesso.

Entre outros que então ocorreram, o incêndio no Pastifício Trondi, em dezembro de 1943, destruiu as instalações da empresa, além de consumir todo o estoque de farinha e macarrão. Já em 1958, outro sinistro resultou na destruição do maquinário e prédio da fábrica de raspa de mandioca de Ramon Perez.

O incêndio que ficou na memória de muitos foi o ocorrido em junho de 1963 na Panificadora São Pedro e na residência de seu proprietário, Hermes Molezin. Identificado o início das chamas por fregueses do estabelecimento, logo foi acionado o carro tanque da Prefeitura para o combate ao fogo.

Mas foi a solidariedade da população que mais chamou a atenção, pois não poupou esforços, subindo no telhado, improvisando com ferramentas diversas e contando com extintores cedidos por comerciantes, água trazida em latas pelos moradores e carros tanques de fazendeiros e prefeituras vizinhas.

O prejuízo foi grande, mas o empresário optou pela reconstrução do imóvel, localizado na esquina das ruas Rubião Júnior e cel. João Manoel. Desta forma, as atividades foram retomadas e houve a expansão dos negócios, incluindo a instalação de um supermercado no mesmo local.

Ainda na mesma década, pelo menos mais dois incêndios causaram grandes prejuízos, em 1966, no depósito de óleos e graxas anexo ao Posto Zé Pedro, na rua Nossa Senhora de Fátima, e três anos depois, no bar e padaria localizado na rua cel. João Manoel, 540, sendo que em ambos, como de praxe, a comunidade se mobilizou para conter as chamas.

Eis que em 1976 desponta uma notícia alvissareira: seria instalada uma unidade do Corpo de Bombeiros em Bebedouro, cuja concretização resultou da mobilização do poder público local e da sociedade civil. Os números logo confirmaram que a necessidade era premente, pois no balanço do ano de 1978 a corporação fora solicitada para apagar 56 incêndios, realizar 13 salvamentos e 134 atendimentos diversos.

Após a instalação dos Bombeiros, outros incêndios voltaram a acontecer e entre os que mais impactaram está o de setembro de 1979, que envolveu dois estabelecimentos localizados na rua cel. João Manoel, na esquina com a Antônio Alves de Toledo. Apesar da atuação dos soldados do fogo, a escassez de água e a rapidez da propagação das chamas culminou na destruição completa da loja Merca Móveis, pertencente aos Irmãos Paganelli, e da firma de materiais elétricos JCS. Posteriormente, ali foi construído um edifício de vários andares, enquanto no térreo se instalou uma loja de departamentos.

Apesar de diversos outros incêndios terem ocorrido posteriormente, cabe destacar o ocorrido na noite da sexta-feira, 10 de junho de 1983, que destruiu completamente as instalações da loja Nevoeiro, localizada na rua dr. Oscar Werneck. Novamente, associado ao trabalho dos bombeiros militares, foi considerável a atuação dos populares, que tanto se empenharam para que as chamas não se estendessem para as construções vizinhas.

No ano seguinte foi anunciada a construção de um edifício na esquina onde funcionara o tradicional Hotel Municipal. No térreo do prédio, viria a ser instalada a nova filial da Nevoeiro, que ali permaneceu até o fechamento da empresa.

Conforme apontado, os incêndios resultaram em significativas perdas materiais, mas além das cicatrizes deixadas, permanece viva a memória da bravura dos bebedourenses que, antes mesmo das sirenes, já uniam forças para proteger sua cidade.

 

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense,

www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 10.997 Sábado a quarta-feira, 28 de março a 1º de abril de 2026 – Ano 101