Quarentena eterna

José Mário Neves David

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O Brasil vem, desde meados de março, amargando um interminável período de recolhimento e mudança de hábitos. De repente, fomos forçados a ficar em casa, trabalhar em casa, viver em casa. Aos afortunados que podem trabalhar do conforto do lar, a prática virou rotineira, e o tédio se instalou; aos que precisam ganhar diariamente a vida, não restou alternativa a não ser sair de casa todos os dias com máscara, com dúvidas, com medo. Medo do que virá, medo do que acontece, medo do contato. O que não muda, contudo, é a quarentena eterna.
Desde o início da fase mais aguda da pandemia no País, vivemos uma grande incerteza. No início ficamos (quase) todos em casa, as ruas estavam vazias e havia uma compreensão quase universal da necessidade do recolhimento. Com o tempo, fomos achando que a situação estava sob controle e voltamos à vida externa, alguns por não aguentarem mais ficar em casa, outros por pura necessidade financeira, profissional ou, porque não, para manutenção da sanidade mental. O que não se atingiu, contudo, foi o objetivo de “domar” o temido coronavírus.
Assistimos o noticiário que mostrava o lockdown na Itália, na Espanha, por quase dois meses, e achamos que aqui seria também assim. Só que no Brasil, não fizemos nem isolamento, nem mantivemos a vida normal. Ficamos no meio do caminho, talvez querendo nos autoconvencer de que estávamos fazendo a coisa certa, mas, no fundo, o que fizemos foi quase inócuo. Achatamos, em parte, o crescimento da curva de casos da doença no Brasil, mas não ficamos, efetivamente, em casa; tampouco tocamos a vida, e nessa solução “mais ou menos”, já estamos caminhando para quatro meses de quarentena sem qualquer perspectiva de mudança para melhor – quando a “vida voltará ao normal”. Quem precisa trabalhar e ganhar dinheiro na luta diária sofreu, pois ficou – ou ainda está – com seu negócio fechado ou “parcialmente aberto”, o que, por certo, não é o ideal para ninguém.
Nesse contexto, a solução adotada, um quase “fingimento coletivo de que estamos fazendo algo”, não resolve a questão de saúde (os números de falecimentos e contaminados só aumenta no País), tampouco é bom do ponto de vista econômico (o abre-e-fecha do comércio está aí para provar). Nem fizemos isolamento, nem deixamos a vida acontecer – uma espécie de “quarentena soft”, que aperta e afrouxa, não resolve o problema de ninguém e sequer tem perspectiva de até quando deve durar.
Assim, ao olhar os italianos, espanhóis, franceses, alemães, portugueses, dentre outros, voltando calmamente à normalidade após um período de medo, dúvidas e incertezas, em que medidas duras, porém eficazes, foram implementadas, ficamos com inveja. Não fizemos nossa parte corretamente, e agora não sabemos quando voltaremos à normalidade, se é que voltaremos. Mas a economia já está alvejada, muitas pessoas já perderam seus empregos ou negócios, e não domamos o vírus nem controlamos a situação. A situação, quando parece controlada, se descontrola. Como sempre, no Brasil que desconhece o termo “planejamento”, ficamos à mercê do acaso e torcendo, aflitos, para que Deus seja mesmo brasileiro e tenha piedade de nós.
Dessa forma, fica clara a sensação de que nossa quarentena é eterna, que as coisas não melhoram e que não há perspectiva de quando sairemos desse buraco. Quando será que poderemos voltar a visitar e abraçar nossos pais? Quando será que poderemos voltar a trabalhar e ganhar a vida normalmente? Quando será que poderemos passear com a família, encontrar os amigos e assistir um filme no cinema novamente? Só o tempo dirá o tamanho dessa espera, e esperamos que ela não seja eterna.

(Colaboração de José Mário Neves David, advogado e administrador de empresas. jd@josedavid.net).

 

Publicado na edição nº 10498, de 4 a 7 de julho de 2020.