Raça de víboras hipócritas

José Renato Nalini

0
76

Tempos melancólicos em que se fala tanto do Criador e tão pouco se observa o que Ele disse. O adensamento populacional planetário mostra que o “crescei e multiplicai-vos” talvez tenha se excedido. Era a lição apropriada à povoação da Terra. Hoje, ela está explodindo. Não há recursos naturais para o sustento de todos os seus bilhões de seres que se alimentam, produzem dejetos e fabricam desertos.

Essa imensa “floresta humana” deve provocar uma reflexão de quem não perdeu completamente o juízo. Meditar sobre o texto em Mateus, 12- de 33 a 37: “Ou fazei a árvore boa e o seu fruto bom, ou a árvore má e o seu fruto mau; porque pelo fruto se conhece a árvore”.

Que frutos estão produzindo alguns políticos profissionais ou os cooptados por estes, para “servir ao povo brasileiro”?

Pelos acontecimentos noticiados como petardos pelas mídias, a corrupção está longe de acabar. Ao contrário: viceja e cresce. É fecunda e próspera. Daí a invocação a Mateus: “Raça de víboras, como podeis falar coisas boas, sendo maus? Porque a boca fala do que está cheio o coração”.

Uma radiografia d’alma estamparia a cupidez, a “sagrada fome pelo ouro”, tão conhecida dos homens “racionais” que se esquecem da fragilidade efêmera desta aventura terrena. Chafurdam na lama, já não têm remorso, porque perderam a consciência. E tudo o que fazem, revestem de uma fantasia: estão agindo em nome de Deus.

O péssimo exemplo para os que creem é também o fortalecimento daqueles que não creem: qual o motivo para se professar uma crença, quando os que se dizem mensageiros são os propagadores do mal?

Sob qualquer ótica, essa conduta de se valer da religião para obter proveito material é calhorda, nojenta, desprezível, abominável. Melhor seria, na linha evangélica, não tivessem nascido os que produzem estes exemplos do que não deve ser um homem de bem.

O Cristo conhecia a raça que criou, orgulhosa, petulante, pretensiosa, quando chamou alguns de seus exemplares de “sepulcros caiados”. A conduta mais recente mostra que até a caiação é fake. A podridão está à vista, escancarada, para servir às novas gerações como recomendação negativa: não façam isso! Não se sirvam do nome de Deus para a obtenção de lucro, poder e prestígio. Vida ética e que valha a pena, é exatamente o contrário disso.

(Colaboração de José Renato Nalini, reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022.)

Publicado na edição 10.659, de sábado a terça-feira, de 9 a 12 de abril de 2022.