Rezas, bençãos e curas milagrosas: o caso da “Santa de Bebedouro”

José Pedro Toniosso

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Capa do livreto “A Santa de Bebedouro”, contendo orações e relatos de “curas miraculosas” realizadas por Helena Malengo (acervo do autor)Capa do livreto “A Santa de Bebedouro”, contendo orações e relatos de “curas miraculosas” realizadas por Helena Malengo (acervo do autor)

Em meados de 1937, surgiu em Bebedouro uma jovem senhora dotada de poderes mediúnicos que conseguiu arrebanhar inúmeros seguidores, sendo alvo de muitas reportagens, publicadas em veículos de imprensa locais, regionais e nacionais.

Mas qual a motivação para tanta repercussão? Segundo consta nos registros, no início do mês de junho começaram a surgir informações sobre curas miraculosas que eram realizadas por Helena Carvalho do Nascimento Malengo, de cerca de 25 anos, casada com Antônio Malengo, residentes na rua Prudente de Moraes e empregados dos escritórios da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, empresa da qual se afastou para dedicar-se à nova atividade.

Dizia ser católica, mas também, médium, o instrumento de um “espírito de luz” que incorporava para fazer diagnósticos dos enfermos que a procuravam, indicando os tratamentos necessários que, muitas vezes, incluíam intervenções cirúrgicas. Segundo ela, o espírito era do Dr. Alfredo Gomes da Silva, médico falecido em Bebedouro e que lhe revelou o destino de curar o próximo com seu auxílio.

Logo a médium tornou-se conhecida, principalmente com a divulgação de nomes de pessoas que teriam sido operadas com êxito, desde crianças até adultos, das quais não cobrava nenhum tipo de honorário pelas atividades desenvolvidas.

No final de junho ocorreu uma intervenção do inspetor da Saúde Pública do município, que após visita ao local em que ocorriam os atendimentos espirituais, comunicou Helena Malengo que a partir de então as operações não poderiam mais ser realizadas, por estarem em desacordo com o Código Sanitário.

Apesar da determinação, as operações não foram interrompidas, sendo crescente a afluência ao local, atingindo a marca de mais de cem pessoas diariamente. Com a intensificação dos atendimentos e das “curas milagrosas”, os principais diários paulistanos passaram a publicar frequentes reportagens a respeito.

Em matéria publicada em um jornal de São José do Rio Preto, o caso foi tratado como o de “uma santa que o povo descobriu em Bebedouro” […] “ministra do céu que tem nas mãos milagrosas poderes supremos. Sara e cura à vontade, com uma garrafinha de água espiritual […]. Tão grande é a procura, que o frasco precioso é entregue à multidão dos crentes pelo próprio marido da santa, que funciona como secretário e chefe de expediente. […] De Rio Preto já estão partindo levas de pessoas doentes, de corpo e de espírito, que vão ao novo bebedouro de água santa, água virtuosa, que cura todos os males. […] Pobre povo!”

A situação adquiriu tal proporção que sucessivas vezes houve a necessidade de a polícia intervir para retomar a ordem e desimpedir o trânsito à porta da residência do casal Malengo. Na sequência dos fatos, o delegado da Delegacia de Vigilância e Capturas de São Paulo determinou o encaminhamento da médium à capital para prestar depoimento sobre o “poder estranho que lhe permitia fazer curas.”

Frente ao delegado, Helena relatou que usava seus poderes para fazer o bem a seus semelhantes, que não exercia a medicina ilegalmente, tampouco praticava atos de feitiçaria, sendo que não cobrava nenhum vintém pelo seu trabalho. Além disso, exibiu extensa lista de atestados e declarações de dezenas de pessoas que teriam obtido curas por seu intermédio, sendo todos os documentos registrados em cartório. Diante do exposto, foi liberada e autorizada a retornar à sua casa.

Tão logo chegou em Bebedouro, o atendimento aos doentes foi restabelecido, gerando novamente as aglomerações diante de sua casa e a insatisfação de parte significativa da população local. Com isso, Helena Malengo foi chamada à delegacia de polícia para novos esclarecimentos, ocasião em que recebeu ordem de não mais receber doentes em sua casa.

De fato, a população bebedourense mostrava-se cada vez mais incomodada com a forma sensacionalista como a grande imprensa vinha apresentando o caso. A imagem de uma “cidade inculta” impregnada de crendices fez com que associações religiosas e entidades se mobilizassem junto às autoridades estaduais para que tomassem medidas efetivas sobre o caso.

Como resultado registra-se o telegrama enviado ao Secretário da Segurança Pública e da Justiça pela “Associação Católica Feminina de Bebedouro”, representando cerca de mil e setecentas senhoras católicas, agradecendo o “extermínio do foco de fanatismo”, que permitiu que voltasse a “reinar a tranquilidade no seio das famílias”.

Nos meses seguintes, Helena Malengo mudou-se para a capital paulista, onde alugou um imóvel na Alameda Santos, no Jardim Paulista, onde instituiu um espaço denominado “Pavilhão da Caridade e Redenção”, continuando com as mesmas práticas de atendimento espiritual, voltadas para as “curas miraculosas”.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense)

Publicado na edição 10.706, de sábado a sexta-feira, 8 a 14 de outubro de 2022.