Segunda-feira vou começar meu regime, se Deus quiser

0
474

Promessas e promessas, essa é a sina daqueles que vivem brigando com a balança. Se você é um desses, certamente já deve ter feito uma promessinha semelhante. Se não é, provavelmente deve tê-la ouvido de alguém próximo. O fato é que quando as pessoas se veem com sobrepeso ou com gorduras que descaradamente insistem em aparecer ao espelho, um alerta automaticamente reverbera pela mente avisando que é hora de fazer mais uma promessa, e quem sabe com a ajuda de Deus, cumpri-la adequadamente.

Pecados à parte, em uma era de comida fácil e sem valor nutritivo, aliada à inexorável falta de tempo para bons hábitos esportivos, seria surpreendente não termos consciência de que boa parte da população ocidental, incluindo nós brasileiros, convive com uma proeminente epidemia de obesidade. A reboque, marcam presença o diabetes, a pressão alta e os ataques cardíacos, os quais não distinguem idade, sexo ou cor. Esteja obeso, esteja sujeito mais facilmente a tais doenças. E se fumar e beber, pior a desgraça.

Se por um lado empresas facilitam nossa vida nos fornecendo comida de engorda, por outro, nos inundam com produtos para literalmente botar fora a danada da gordura. Chás detox da manhã, shakes slim da tarde e pílulas smart da noite são figurinhas fáceis em programas de TV, farmácias especializadas ou mesmo no camelô da esquina. Muitos desses produtos sequer cumprem o mínimo prometido e daí vale o velho ditado “se não mata, pode engordar ainda mais”.

 

Desfazendo confusões

Embora conhecido há muito tempo, o processo metabólico de perda de peso ainda costuma ser novidade para a população. Em geral as pessoas acreditam que a maior parte da gordura corpórea perdida se transforma em energia ou sai em forma de fezes, urina e suor. E não é bem assim. Em artigo publicado no British Medical Journal em 2014 (www.bmj.com/content/349/bmj.g7257), pesquisadores dissecaram o processo metabólico mostrando que a gordura, na verdade, deixa o corpo humano em forma de CO2 forjado pelos pulmões. Isso mesmo, eliminamos a gordura pelo ar que exalamos.

Objetivamente falando, o excesso de carboidratos e proteínas que ingerimos diariamente é transformado em triglicerídeos – composto formado por carbono, hidrogênio e oxigênio – o qual fica armazenado nas células de gordura. Para eliminar esse composto armazenado, o organismo necessariamente precisa quebrar o triglicerídeo, cujo processo resulta em CO2 + H2O + energia. Para termos ideia, em cada 10 quilos de gordura que perdemos em um determinado período, 8,4 quilos deixam o corpo em forma de CO2 e somente 1,6 quilos sai em forma de água (urina, suor, lágrimas, fezes, e outros fluidos).

 

A difícil missão de emagrecer

Uma pessoa com peso médio de 70 quilos costuma perder diariamente em uma rotina de repouso ou atividades leves, apenas 200 gramas de carbono. Se correr durante uma hora, vai perder mais 40 gramas. Em termos de comparação, ao ingerirmos somente 500 gramas de sacarose, ganhamos 210 gramas de carbono. Sim, um simples e ingênuo docinho nos faz recuperar de uma única vez cerca de 20% daquilo que perdemos durante o dia todo. Daí a frustração em ver a demora dos resultados das atividades físicas, principalmente se não controlarmos o que ingerimos.

Muitos, diante dessa frustração doída, partem para uma dieta rigorosa demais – um pé de brócolis cozido no almoço e duas folhas de alface à noite. Ou despertam uma obsessão compulsiva com a balança, se pesando onde quer que exista uma. A ansiedade e o desânimo são comuns nesse processo de emagrecimento diante do desafio enfrentado. Nesses termos é importante ter consciência de que milagres não existem, por mais que possamos vê-los nas propagandas de TV, na Internet ou nas fofocas com a vizinha. A perda de peso saudável e consistente é lenta e progressiva, e normalmente passa por uma reeducação geral dos hábitos, seja em termos alimentares, esportivos ou de sono. Além disso, é importante que o processo seja acompanhado por profissionais médicos, nutricionistas e educadores físicos. Isso vai ajudar a mitigar riscos de doenças ou contusões indesejadas.

E tenhamos sempre em mente que nós e somente nós mesmos conseguiremos provocar qualquer mudança em nossos hábitos. Esperar pelo tempo bom, pela companhia mais agradável, pelo fim do trabalho ou pela segunda-feira chegar nem sempre é um bom caminho. Afinal o tempo não para!

Colaboração de: (Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).