Zoológicos humanos

José Renato Nalini

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A carioca Mestre em Artes e Doutora em multimeios Sandra Sofia Machado Koutsoukos enfrentou uma empreitada muito interessante, embora ocasione certo desconforto em seus leitores. Ela escreveu “Zoológicos humanos”, para narrar o drama de pessoas que são exibidas em circos, museus, zoológicos, feiras e instituições científicas, na condição de atrações bizarras.
São seres humanos convertidos em atração e entretenimento, presente a costumeira curiosidade mórbida, acompanhada de falta de compaixão e de respeito pela dignidade dos expostos.
É uma das características da espécie dita racional a curiosidade pelo diferente, pelo exótico, por aquilo que se afasta da chamada normalidade. Até mesmo as crianças são cruéis e não é raro hostilizem coleguinhas diferentes, o que se traduziu na cultura do “bullying”.
Também é comum encontrar analogia entre humanos e animais, o que explica a escancarada utilização de apelidos quais “raposão”, “galo de briga”, “tigrão”, o que poderia parecer inocente. Só que essa praxe pode até adquirir conotação pejorativa, quando se faz referência a alguém, a quem se chama “cachorro”, “porco”, “vaca” ou “galinha”.
O suprassumo do desrespeito com os humanos está em considerá-los aptos a ocuparem jaulas, gaiolas, espaços especialmente produzidos para mostrar anomalias. Assim é que já foram cobrados ingressos para frequentadores de circos apreciarem “mulher barbada”, “homem-elefante”, “hermafroditas” e outras singularidades.
O livro “Zoológicos Humanos”, editado pela Unicamp, faz uma narrativa dessa abominável prática e ostenta fotos que comprovam o quão inclemente pode ser o homem. Uma das mais comoventes é a do pigmeu congolês Ota Benga, que era um dos preferidos alvos dos visitantes do zoológico do Bronx, em Nova Iorque. Na fotografia, com ar tristonho, imagina-se o motivo, ele carrega no colo a chimpanzé Dolly.
A explicação para os que exploram tais fenômenos é o de que o pigmeu não seria um ser humano em sua completude. Seria um “elo perdido”, considerado, no máximo, como um canibal.
A humanidade ainda tem muito a se aprimorar, até atingir o estágio civilizatório a que alguns pretensiosos acreditam que ela já tenha chegado.

(Colaboração de José Renato Nalini é Reitor da Uniregistral, docente da Pós-graduação da Uninove e Presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022).

Publicado na edição 10.551 de 3 a 5 de fevereiro de 2021.