A breve trajetória da Loja Maçônica Abílio Manoel (1921-1937)

José Pedro Toniosso

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Convite para a Sessão Magna de Iniciação, publicado na edição de 1 de julho de 1922 do Jornal de Bebedouro (acervo da Gazeta de Bebedouro)

O movimento maçônico se fez presente no município de Bebedouro desde os primeiros anos de sua história, haja vista os registros existentes na imprensa local e nas obras publicadas por alguns memorialistas.

Abílio Manoel, distintivo da Loja Maçônica fundada em 1921 (acervo particular do autor).

Entre as primeiras, a maioria teve duração efêmera, sendo poucas as informações sobre elas, incluindo as Lojas Maçônicas “Amor e Honra”, “Padre Feijó”, “A. Antunes Ribas” e “Fé e Caridade”. Esta, fundada em 23 de junho de 1895 e regularizada em 1 de abril de 1897, era federada ao Grande Oriente do Brasil.

Com a extinção da “Fé e Caridade”, antigos membros articularam-se para a fundação de uma nova Loja, dando origem à “Justiça e Amor” que em 1 de maio de 1903 já estava regularizada. Sua primeira diretoria foi assim constituída: Venerável, Cel. João Manoel; 1º Vigilante, Nicolau Cassiano; 2º Vigilante, Abílio Manoel; Orador, Anfrísio Fialho; Secretário, Cândido Spínola Castro; Tesoureiro, Francisco da Rocha Cupido; Chanceler, Álvaro Machado.

Destaca-se que entre 1903 e 1910, João Manoel permaneceu como Venerável Mestre da “Justiça e Amor” em seis períodos, enquanto seu filho, Abílio Manoel, foi eleito e proclamado Venerável em sete períodos entre os anos de 1910 e 1921.

O falecimento de Abílio Manoel em 17 de janeiro de 1921, segundo Arnaldo Christianini, gerou uma dissidência na “Justiça e Amor”, o que levou à formação de uma nova organização, conforme publicado no jornal Folha do Povo, em 9 de outubro daquele ano: “em assembleia de vários membros reunidos no dia 04 do corrente foi fundada nesta cidade, uma loja maçônica sob a denominação de Loja Abílio Manoel, sob os auspícios do grande oriente do Brasil e que funcciona sob o rito azul”.

Em 11 de junho de 1922, a “Augusta e Respeitável Loja Maçônica Abílio Manoel” publicou na imprensa um convite “a todos os obreiros do quadro para uma secção magna que terá de proceder-se no dia 27 do corrente, para a posse de suas Luzes e Dignidades e officiaes.”

De fato, na data indicada foi realizada a cerimônia de posse da primeira diretoria, assim constituída: Venerável, José Garcia; 1º Vigilante, Raymundo Milton; 2º Vigilante, Christianini; Orador, Jeremias Moreira Santos; Secretário, Theotônio de Mattos; Tesoureiro, Luiz Fattori; Chanceler, Manoel Seabra.

Dias depois, nova publicação na imprensa convidava “a todos os irmãos deste Oriente a comparecerem no dia 04 do corrente às 7 e meia horas da noite. Ordem do dia: sessão magna de iniciação.” Ressalta-se que a Loja Abílio Manoel seguia o “rito moderno ou francês”, que a distinguia das outras Lojas existentes até então e mesmo as que surgiram depois.

Entre os principais eventos promovidos pela Loja em seu primeiro ano foi a realização de algumas manifestações em comemoração à data natalícia de seu patrono, Abílio Manoel, nascido em 21 de agosto de 1865. Desta forma, informava que, “no dia 20, à tarde, incorporados na quase totalidade de seu quadro, compareceram ao cemitério e depositaram flores no túmulo do inesquecível coronel, sendo plantada pelos respectivos obreiros, ao lado do majestoso túmulo, um pequeno ramo simbólico.  […] fez no dia 21 uma visita ao túmulo do saudoso morto. À noite desse dia, em sua sede, houve uma solene sessão branca […]”.

Na mesma matéria, de agosto de 1922, informava que a Loja Abílio Manoel, “constituída por um grupo de operários na sua maioria”, havia adquirido um terreno para a construção de um prédio para o seu templo, “devendo ser as obras atacadas brevemente”.

Destaca-se que inicialmente a Loja esteve instalada na rua Rubião Junior, n. 45, porém, na publicação do “Extrato dos Estatutos” em edição de junho de 1935 do jornal “Fraternidade”, constava no Artigo 1º que  “A Loja Beneficente Abílio Manoel fundada em 12 de outubro de 1921, nesta cidade de Bebedouro, Estado de São Paulo, tem sua sede em prédio próprio à Rua Rubião Junior, n. 746, instituição filantrópica, filosófica e progressista, tem por objetivo o aperfeiçoamento material e intelectual da Humanidade”

Em 1937, as maçonarias seriam atingidas diretamente pelo golpe de Estado impetrado por Getúlio Vargas e que deu início ao período ditatorial denominado Estado Novo. De imediato ocorreu a dissolução do Congresso, a extinção de todos os partidos políticos e a outorga de uma nova Constituição, de cunho autoritário.

Com base no artigo 158 da Constituição de 1937 houve a proibição de funcionamento da Maçonaria no Brasil, assim como de outras entidades. Desta forma, as duas maçonarias existentes em Bebedouro tiveram suas atividades suspensas, ao menos oficialmente.

No início da década seguinte, as Maçonarias tiveram autorização para retomarem suas atividades, mas em Bebedouro somente a “Justiça e Amor” reabriria, enquanto a “Abílio Manoel” permaneceria fechada definitivamente.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense)

Publicado na edição 10.700, de sábado a sexta-feira, 17 a 20 de setembro de 2022.