A esquizofrenia e os fatores ambientais

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Muitos de nós brasileiros somos descendentes de europeus que deixaram sua terra natal para se estabelecerem em um novo país buscando melhores condições de vida. Foi o caso de meu avô paterno, que deixou a Itália, e do materno, que deixou a Espanha.
Tanto no início como em meados do século XX houve uma grande corrente migratória da Europa para a América. Ambas não foram ocorrências isoladas no tempo, pelo contrário, foram permeadas por diversas outras menores e são cada vez mais comuns nos dias atuais: bolivianos, peruanos e paraguaios atravessam as fronteiras do Brasil; brasileiros, mexicanos e porto-riquenhos tentam entrar nos Estados Unidos; albaneses e sírios chegam à costa italiana; enfim, tudo funcionando em um macrocosmo populacional dinâmico.
Analogamente ao processo extrafronteira, o movimento de deslocamento interno da população de um país se tornou muito comum, principalmente no Brasil, cuja população rural alcançou as grandes cidades em um processo denominado êxodo rural, a partir de meados do século XX.
Sem entrar no mérito das causas desse dinamismo, que em sua maioria recaem sobre a busca de melhores condições de vida, o fato é que nos últimos anos, estudos têm demonstrado uma estreita relação entre a urbanização e fragmentação social e a esquizofrenia, um distúrbio mental caracterizado pela perda da realidade.

As pesquisas

Há alguns anos Jim Van Os, da Universidade de Mastricht, Holanda, realizou um estudo com mais de sete mil pessoas entre 18 e 54 anos e observou uma grande incidência de doenças mentais em indivíduos com traumas, como abusos sexuais e perda prematura dos pais (principalmente da mãe), além de imigrantes, esses últimos possivelmente por terem sido vítimas de discriminação em seus novos países.
Um outro estudo, esse publicado em 2003 por Elizabeth Cantor-Graee, da Universidade de Lund, demonstrou que dos 2,1 milhões de suecos nascidos entre os anos de 1954 e 1983, os que emigraram para a Dinamarca apresentaram uma probabilidade 2,5 vezes maior de desenvolver esquizofrenia do que aqueles que permaneceram no país. Ainda no mesmo estudo, os dinamarqueses que viveram fora do país e retornaram, tiveram quase duas vezes mais risco de desenvolver o distúrbio do que os irmãos que permaneceram na terra natal.
Por fim, uma pesquisa publicada em 2001 na revista British Journal of Psychiatry e realizada por Carsten Pedersen e Preben Mortensen, diz que moradores de Copenhague (capital da Dinamarca) estão sujeitos a um risco duas vezes maior de se tornarem esquizofrênicos do que os seus conterrâneos moradores do campo.

Os motivos

Se antes se creditava o surgimento da esquizofrenia a causas puramente genéticas, hoje já se permite um novo coadjuvante: os fatores ambientais. Há décadas descobriu-se um fato significativo para essa possibilidade em estudos realizados com gêmeos idênticos. Se um deles se torna esquizofrênico, o outro tem 50% de risco de se tornar também. Ora, se os fatores genéticos fossem os determinantes absolutos da esquizofrenia, era de se esperar que a referida probabilidade fosse 100% e não 50% como se verificou.
Tudo leva a crer que os fatores ambientais influenciam diretamente o funcionamento da comunicação (sinapses) entre os neurônios, de tal forma a aumentar a probabilidade para os desequilíbrios mentais nervosos. Além disso, o ambiente externo pode acionar um ou mais dos cerca de 30 genes relacionados ao problema, os quais agem sobre os neurônios danificando as conexões entre as células nervosas.
Nos últimos dez anos pesquisadores vêm descobrindo particularidades nos cérebros de esquizofrênicos. Por exemplo, sabe-se que neles há alterações de dopanina e glutamato (moléculas de comunicação entre neurônios), além de uma menor circulação de sangue em algumas áreas. Ainda, nos esquizofrênicos as cavidades do meio do cérebro chamadas ventrículos, são maiores, e o hipocampo, chave para a memória e aprendizado, é menor.
O fato dos genes perderem o privilégio para os fatores ambientais como causa única da esquizofrenia é só mais um capítulo de uma história que está apenas começando. Muito ainda está por se descobrir. O cérebro continua sendo um dos grandes mistérios do corpo humano.

Publicado na edição nº 10073, de 22 e 23 de dezembro de 2016.