A Revolta Paulista de 1924: agitações e busca pela ordem em Bebedouro

Por José Pedro Toniosso

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Memórias - Revolução de 1924 entrou para a história como a ‘revolução esquecida’ Fonte: Acervo Carlos Cornejo/BBC News Brasil

No início da década de 1920, ocorreu no Brasil um movimento de cunho político e militar denominado “Tenentismo”, envolvendo jovens oficiais de nível intermediário do Exército. Os revoltosos estavam descontentes com o sistema político brasileiro, marcado pelo domínio das oligarquias paulista e mineira e tinham como objetivo assumir o poder e moralizar o governo.

O primeiro episódio ocorreu em 1922 no Rio de Janeiro, ficou conhecido como a “Revolta dos Dezoito do Forte de Copacabana”, mas devido à baixa adesão e forte repressão das forças oficiais acabou sendo derrotado. Dois anos depois teve início o segundo ato do movimento, a “Revolta Paulista”, na capital do Estado, local escolhido devido à sua importância política e econômica. De acordo com o historiador Boris Fausto, a Revolução de 1924 foi mais bem preparada, tendo como objetivo expresso derrubar o governo do presidente Artur Bernardes.

Sob a liderança do general reformado Isidoro Dias Lopes, o movimento teve início no dia 5 de julho e durou 23 dias, com a tomada de alguns quarteis e o bombardeamento de vários locais, atingindo militares e civis e provocando muitos estragos materiais.

Os desdobramentos da Revolta em Bebedouro

Os revoltosos acabaram sendo derrotados e abandonaram a capital, deslocando-se pelo interior do estado de São Paulo, causando reflexos em vários municípios paulistas. Em Bebedouro, conforme registro do pesquisador Arnaldo B. Christianini, muitos moradores acreditavam que o governo seria derrubado, o prefeito seria substituído e os operários teriam voz ativa na nova ordem que seria estabelecida. Desta forma, o povo “torcia” pela vitória dos revoltosos e cantava paródias enaltecendo o líder Isidoro e outros tenentistas, enquanto ridicularizavam o presidente Artur Bernardes, cantando paródias como esta:

“O Isidoro é de ouro / E o Cabanas é de prata,/ Potiguara é de chumbo, / E o Bernardes é de lata./ Chora, canhão, / Responde a carabina: / – Eu vi o Artur Bernardes /Refugiar-se na latrina”.

Ainda de acordo com Christianini, alguns elementos da oposição política procuraram instigar o operariado ferroviário a rebelar-se. Houve até mesmo uma tentativa de tomada da Prefeitura à força, porém devido à intervenção das forças policiais locais os revoltosos debandaram.

O próprio prefeito da época, Antônio Alves de Toledo (1924-1930), incluiu parte dos fatos ocorridos em seu livro “Memórias de Bebedouro”:

Um grupo de bandoleiros, provenientes do lado do “Frigorífico Anglo” (Barretos), aproveitando a insegurança do Governo do Estado, o qual se achava abalado em consequência das desordens provocadas por Isidoro, pretendeu atacar as cidades de Colina e Bebedouro. Colina pediu reforço de homens bem armados e Bebedouro atendeu e o combate se travou nas proximidades de Palmares. […] Os revoltosos levaram um grande revés e desapareceram em debandada”.

O ex-prefeito registrou ainda uma outra ocorrência do dia 14 de julho, quando um grupo de moradores exigia que a Prefeitura fizesse o tabelamento dos preços dos gêneros de primeira necessidade. Apesar dos esforços dos vereadores em aprovarem tal solicitação, os ânimos não foram aplacados: cerca de 300 revoltosos se postaram diante da Câmara Municipal e ameaçavam “vamos atacar e tirar o prefeito a pontapé.”

Para manter a ordem e enfrentar os revoltosos, segundo Toledo, o destacamento policial era de apenas oito soldados e a eles se somaram cerca de quarenta comerciantes armados de revólveres e mais dez homens armados com carabina calibre 44. Porém, continua o ex-prefeito, nenhuma bala foi disparada, pois tão logo os fuzis e carabinas foram manobrados, houve verdadeiro pânico e os desordeiros fugiram apavorados.

Assim como Bebedouro outras cidades do interior foram afetadas, porém, com a derrota na capital, os revoltosos se deslocaram para o oeste do Paraná, onde se juntaram a outro grupo proveniente do Rio Grande do Sul. A partir de abril de 1925 teve início a terceira etapa do movimento, a denominada “Coluna Prestes”, que percorreu milhares de quilômetros pelo interior do Brasil para propagar a ideia de revolução e levantar a população contra as oligarquias, porém sem sucesso.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense).

Publicado na edição 10.653, de sábado a terça-feira, de 19 a 22 de março de 2022.