

Agradeço às pessoas amigas que demonstraram apreço pelo meu primeiro artigo na Gazeta, no dia 25/02/26. Recebi estas manifestações como estímulo a esta iniciativa, mas também com a responsabilidade de ater-me, nos meus escritos, a causas justas e de interesse à comunidade de Bebedouro.
E justamente pela boa acolhida, estou antecipando para esta edição da Gazeta, a segunda parte do texto “dos Velhos e dos Antigos”, que seria publicada mais adiante.
Na primeira parte tratei de conceitos genéricos e agora estou trazendo informações mais específicas, com outras abordagens dos idosos.
Não é fácil envelhecer
Não conheço nenhum idoso que esteja feliz pelo fato de ser idoso.
As religiões, criadas pelos homens, procuram nos convencer que o envelhecimento é pacífico e é uma benção divina. Todavia, as observações dos homens e as boas leituras, contestam esta ideia, simples e singela, mostrando que o envelhecimento é processo complexo, que envolve muitas variáveis, que criam dificuldades para seu bom entendimento, de sorte que a beatitude está reservada aos anjos e aos santos.
Para o comum dos mortais, é outra história. No envelhecimento há uma luta intensa, atroz, entre a vida que quer continuar e a natureza, que quer impor seus limites.
Ao final, a vida, cansada, exaurida, ferida de morte pelas duras batalhas que travou para existir, sucumbe.
No envelhecimento não existe aceitação nem acomodação, como muitos pensam, mas uma entrega, uma renúncia de parte ou do todo da vida, que cada ser humano recebeu na concepção e que agora está perdendo.
Da finitude
Tenho ciência de que posso estar sendo ousado e até insensível, ao falar em público de questão tão pessoal e intima como é a finitude, costumeiramente tratada nos hospitais, velórios e família. Todavia, é minha primeira oportunidade de trazer minhas observações das pessoas e das minhas leituras, bem como de fazer uma pequena contribuição ao tema, por acreditar que a população brasileira precisa rever suas crenças, seus dogmas e despertar para um bem-estar que está ao alcance das suas mãos.
A finitude é o estágio final da vida de todo ser vivo. A grande maioria da população brasileira se recusa a encarar o seu fim. O homem cria histórias, mágicas para zombar, ironizar, ridicularizar a morte, na vã tentativa de dominá-la ou, pelo menos, torná-la mais amigável, e quando a morte chega dizemos que “Deus levou”, “que descansou”.
Apenas para ilustrar, cito uma das muitas histórias que são contadas por aí a respeito da finitude: trata-se daquele cidadão que pediu ao seu anjo da guarda que quando morresse, não o levasse para o céu, que julgava merecer, mas sim ao inferno, pois queria rever alguns amigos falecidos e tinha certeza de que encontraria todos lá.
Mas para tratar do fim, com propriedade, é bom saber um pouco de como tudo começou. Existem duas teorias que procuram explicar como a vida surgiu: Criacionismo e Evolucionismo.
O Criacionismo, derivado de criação, explica que a vida e o mundo são a manifestação da vontade de um ser supremo, o Criador, que criou o mundo em seis dias e descansou no sétimo. A ciência não reconhece esta teoria, que é sustentada pela fé daqueles que acreditam nela.
Já o Evolucionismo, que deriva de evolução, parte do princípio de que a vida surgiu, há bilhões de anos atrás, por acaso, em algum lugar do planeta e de lá para cá vem vindo, passou pelos dinossauros e continuou até nós.
Há outra teoria ainda que afirme que o ser humano começa morrer quando nasce.
Pessoalmente, vejo certo sentido nesta afirmação.
O fato é que, seja pelo Criacionismo ou pelo Evolucionismo, todo ser humano terá que enfrentar a sua finitude. Pessoalmente, há tempos venho tratando a finitude com naturalidade e percebo quanto sofrimento poderia ser evitado se as pessoas aceitassem o final do ciclo vital, iniciado na concepção.
Aceitando a finitude
Não conheço nenhuma cartilha ou manual que tenha instruções para se alcançar finitude serena e abençoada. Deverá ser, pois, caminho individual e exclusivo de cada ser humano, mas não me sinto à vontade para especular sobre a questão.
Prefiro falar de mim mesmo e de como estou me conduzindo na busca desta aspiração.
A mola mestra para seguir nesta senda foi acompanhar, dia a dia, o final de vida do meu pai, que no final de maio/98, foi diagnosticado com câncer agressivo, falecendo 90 dias depois.
Amava a vida e tinha planos para o futuro. Não esperava morrer tão cedo. Tinha 81 anos, novo para os padrões da família.
Ao acompanhar seu sofrimento decidi que não morreria como ele. Ficou claro que seria necessário liberar-me dos bens materiais. E assim, como exemplo, acostumei-me à ideia de que deixarei minha casa, feita pela minha filha, arquiteta, e também meu jardim, que cuido há 25 anos.
Mas toda moeda tem duas faces e há sempre um outro lado que não seja este vale de lágrimas, de velas e choros.
Não faz muito tempo, li um pequeno livro, revelador, escrito por um conceituado filósofo italiano, em que ele argumenta que a velhice pode ser um recomeço, um reaver de sonhos antigos, outros objetivos, novos caminhos não percorridos, alavancados pelos conhecimentos e vivências anteriores. Uma nova oportunidade de ter uma vida plena, voltada à família e às pessoas amigas, completando todo o bem faltante do estágio anterior.
Acredito piamente que isto seja o coroar da minha vida de trabalho.
Parábola do dia: parábola é uma narração curta, que se refere a um fato ou a uma situação não presente no enunciado. Deve ser interpretada e não lida diretamente. Jesus Cristo costumava falar por parábolas para ensinar seus apóstolos e seus fiéis.
“É mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha que o rico ir para o céu”. Após estudar e pensar, julgo ter encontrado uma interpretação possível. Jesus Cristo estava se referindo ao exato instante da finitude, em que o rico refere-se não ao moribundo com muitos bens, mas ao moribundo que não consegue libertar-se dos bens materiais.
Numa interpretação livre ficaria: “é mais fácil um fio de lã grosso passar pelo buraco de uma agulha do que aquele que não consegue livrar-se dos seus bens materiais, ir para o céu”.
Procure encontrar outra das interpretações possíveis.
Fato do dia: “a segunda guerra mundial foi vencida pela teimosia inglesa; pelo dinheiro norte americano e pelo sangue russo”.
Procure saber por quê.
E para terminar: para qual idoso eu estive escrevendo?
No meu imaginário, enquanto escrevia, sempre tive em mente o idoso comum, de ambos os sexos, de qualquer profissão, amante dos bons costumes, devotado à família e que não precisou ter nenhuma habilidade especial para levar uma vida honrada e digna.
Observações: Dias atrás em reunião com a diretora da Gazeta, ficou definido que meus artigos serão publicados no último sábado de cada mês; Na próxima edição do dia 25/04, tratarei da Bandeira do Brasil.
(Colaboração de José Mario Paro, Produtor Rural).
Publicado na edição 10.997 Sábado a quarta-feira, 28 de março a 1º de abril de 2026 – Ano 101




