Ciência marginal

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Em 2005 Hwang Woo-suk, um dos mais renomados cientistas da Coréia do Sul, publicou artigo na prestigiosa revista Science em que afirmava que havia clonado células-tronco específicas a partir de pacientes doentes, fato inédito que permitiria o tratamento de doenças como o Alzheimer e o diabetes. Logo após a publicação, o mundo científico o reverenciou de joelhos e a ingênua imprensa cravou nele os seus holofotes. Mas não por muito tempo, pois logo veio a público que a sua pesquisa era uma fraude, baseada numa série de mentiras. Woo-suk foi destituído de seu cargo na Universidade Nacional de Seul e investigado por uma promotoria pública. A revista “Science” se retratou da publicação perante a comunidade científica.
Casos de má conduta em ciências são mais comuns do que se imagina. Em sua maioria, resumem-se a trabalhos de qualidade duvidosa, resultado de plágios descarados que servem para obtenção momentânea de algum título ou de mera atenção. William Saad Hossne, diretor da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) por mais de uma década, arrisca algumas razões, entre elas o fato de que o número de pesquisadores tem aumentado exponencialmente, o que implica numa competição mais acirrada pela busca ao reconhecimento, e, por conseguinte, por mais verbas que financiem suas pesquisas. Além disso, a pressão das instituições por publicações é muito grande, pois tanto a instituição como o próprio pesquisador são avaliados internacionalmente por esse tipo de indicador. E vale somente aqueles que estão no topo da lista.

Vacina tríplice e o autismo
Em 1998, o cirurgião gástrico Andrew Wakefield e colegas publicaram um artigo na renomada revista médica Lancet, no qual davam conta de que 12 crianças da Inglaterra passaram a apresentar distúrbios gastrointestinais acompanhados de prejuízos no desenvolvimento mental semelhantes aos do autismo. Embora, no artigo, ele tenha afirmado que não havia conseguido provar a associação entre a vacina e o tal autismo, Wakefield usou de sua influência nos meios científicos e distribuiu um vídeo para as redes de televisão em que defendia a conexão entre ambos.
A reação à notícia foi imediata. Um temor tomou conta da população a ponto do nível de vacinação na Grã-Bretanha cair para menos de 80% das crianças em 2003, índice muito abaixo do recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Em 2008 o sarampo voltou a ser uma doença endêmica na Inglaterra e no País de Gales. Um verdadeiro desastre!
Em 2004 foram levantados os primeiros indícios de fraude no trabalho de Wakefield. A partir daí, o Conselho Médico Geral britânico iniciou processo contra ele e co-autores culminando na cassação de sua licença médica e na anulação de seu artigo na Lancet.
Soube-se, a posteriori, que Wakefield embora não fosse contra a vacinação infantil, era arduamente contra a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola). Não à toa, ele próprio possuía uma patente de vacina contra o sarampo. Interesses escusos?

Ganância científica
É difícil para as editorias e instituições de regulação científicas coibir a onda de desvios de conduta dos pesquisadores. Muitos dos casos descobertos são frutos de investigações e esforços independentes, ou, de denúncias dos próprios colegas cuja ética ainda sobrepuja a ambição do reconhecimento fácil. Mesmo em uma das atividades mais nobres do ser humano, o ser cientista, a ganância se mostra arraigada na corrente sanguínea.
Hwang Woo-suk, mesmo depois das condenações, continua trabalhando com células-tronco de animais na China. Já Andrew Wakefield tem apelado em sentenças judiciais para reaver os seus direitos profissionais.
(Colaboração de Wagner Zaparoli, natural de Bebedouro, doutor em Ciências pela USP, mestre em Ciência da Computação, professor de lógica e consultor. E-mail: wzaparoli@gmail.com).

 

Publicado na edição n° 9472, dos dias 8 e 9 de novembro de 2012.