De gota em gota

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A Terra possui algumas grandes massas de gelo distribuídas pela geografia do planeta. As duas maiores situam-se nos polos: o Ártico no norte e a Antártica no sul. Ambas possuem uma grande diversidade natural, boa parte ainda desconhecida do homem. Ambas também compartilham um problema que vem se acentuando aceleradamente com o passar do tempo, o derretimento de seu gelo. Embora não seja um assunto pioneiro e muito menos novidade, o fato é que o derretimento das grandes geleiras continua perene e a passos largos, independentemente da vontade da humanidade em agir efetivamente no processo de reversão das mudanças do clima. E neste caso falta vontade e sobra ignorância e muito descaso.

Saudades das Larsen
Larsen é o nome dado a uma grande plataforma de gelo situada no lado oriental da península Antártica em homenagem ao famoso capitão norueguês Carl Anton Larsen, que navegou ao longo de toda a sua costa em 1893. Essa plataforma foi dividida em sete partes, nomeadas pelos cientistas por Larsen A, B, C, … e G. A Larsen A colapsou em 1995 e se desintegrou completamente. A Larsen B tomou o mesmo caminho em 2002 e hoje já não resta quase nenhum vestígio de sua existência (vejam o vídeo de seu colapso https://earthobservatory.nasa.gov/world-of-change/larsenb.php). A Larsen C, a maior de todas as partes, sofreu um revés em 2016 quando uma enorme porção de 5.800 km2 se desprendeu e se transformou em um gigantesco iceberg de cerca de 1 trilhão de toneladas, cujo tamanho supera a cidade de São Paulo em quatros vezes (vejam aqui a animação do desaparecimento das plataformas http://www.observatoriodoclima.eco.br/wp-content/uploads/2017/07/final_larsenicemelt_landscape_optimized.gif).
Pesquisadores que monitoram a rachadura da Larsen C desde a década de 1980 dizem que não há evidências para ligá-la diretamente ao aquecimento que a península Antártica vem sofrendo nas últimas décadas, ao contrário do que ocorreu com as Larsen A e B, que se desintegraram devido a milhares de poças formadas pelo derretimento do gelo em sua superfície.
De qualquer maneira, o desaparecimento dessas plataformas (das 12 que existiam, 7 já colapsaram nas últimas décadas) exige uma séria reflexão sobre a mudança geofísica que está acontecendo na região Antártica e sobre os respectivos impactos para o resto do planeta. Ocorre que essas plataformas funcionam como uma rolha que mantém a estabilidade da massa gelada da península, recebendo e segurando o derretimento de todos os canais de escoamento para o mar. Sem essa rolha natural poderá haver uma perda maior e mais rápida dos glaciares continentais com o consequente aumento dos oceanos, isso para citar apenas um dos vários impactos.
Perder inteiramente a Larsen C não é o fim do mundo – todo o gelo ali presente refere-se a meio metro de elevação dos oceanos – mas é um poderoso sinal de que devemos, daqui em diante, nos preocuparmos com cada centímetro de água que chega até eles. Não podemos nos esquecer de que no último século vimos os oceanos subirem 20 centímetros. Mais 100 e as cidades litorâneas do mundo todo sofrerão consequências irreversíveis.

Além do nível dos oceanos
Se por um lado os arautos do apocalipse climático dão muito valor para o aumento do nível dos oceanos, por outro, se esquecem de que ele não é o único fator negativo a ser observado. Pelo contrário, as consequências são abrangentes a começar pela fauna e flora local que já se encontra em extinção, como é o caso dos ursos polares que estão perdendo não só o seu habitat natural, mas principalmente a sua fonte de alimentos; e o caso dos recifes de corais, que abrigam cerca de um quarto de todas as espécies marinhas, regulam o oxigênio e o dióxido de carbono da atmosfera e ainda protegem as costas litorâneas. Poderia citar também o desprendimento do gás metano aprisionado nas geleiras, a reversão das correntes marinhas que aquecem e resfriam os continentes e o perigo maior da ruptura dos padrões climáticos, entre outros fatores.
Enfim, o cenário é crítico e o fato relevante é que cada ação individual e não sustentável da humanidade pode colaborar para a aceleração da degradação das geleiras da Terra. Já passou da hora de jogarmos pela natureza e não contra ela, não é mesmo? Por que não fazê-lo se só teremos a ganhar?
Para quem se interessa pelo tema, não deixe de visitar o http://www.observatoriodoclima.eco.br/.

(Colaboração de Wagner Zaparoli, doutor em ciências pela USP, professor universitário e consultor em tecnologia da informação).

Publicado na edição de nº 10417, de 10 a 13 de agosto de 2019.