Enfim, Deus recebeu o Nobel

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Há quase 30 anos pesquisadores de várias partes do mundo lançaram a idéia para se construir o maior acelerador de partículas feito pelo homem em todos os tempos, o Grande Colisor de Hádrons (LHC, em inglês). Décadas depois, a um custo de oito bilhões de dólares, o LHC iniciou sua agenda recheada de experimentos, cujo objetivo principal era tentar explicar a origem da massa das partículas elementares do Universo.
A despeito das interrupções devido a falhas técnicas, o LHC comemorou diversas conquistas, entre elas, o recorde de geração de energia equivalente a sete trilhões de eletronvolts e a criação de mini-big bangs à temperatura de 10 trilhões de graus Celsius, um milhão de vezes mais quente do que a temperatura no centro da Terra.
Entretanto, a maior conquista realizada pelos milhares de cientistas que ali trabalham se deu em meados de 2012, quando em mais de 30 trilhões de colisões que envolveram 40 milhões de partículas, cada uma, surgiu a famosa partícula denominada bóson de Higgs.

A partícula divina

Peter Higgs, físico teórico britânico, elaborou uma teoria cuja proposta chegou a público em 1960. Ela tenta explicar como as partículas que formam o seu, o meu e o corpo de todos os humanos (os quarks), conseguem se manter grudadas dando forma e consistência a eles, diferentemente de um raio de luz ou de uma onda de rádio, por exemplo.
A proposta de Higgs indicava que deveria haver partículas que “colam” os quarks, mas não colam os fótons ou outras partículas que existem soltas no Universo. Às partículas que fazem parte desta “cola” deu-se o nome de bósons de Higgs. Sem elas não existiria massa e, consecutivamente, nenhuma matéria no Universo.

Deus e o Nobel nessa história

O bóson de Higgs também é conhecido no meio científico como partícula de Deus. Tudo começou quando o cientista Leon Lederman resolveu escrever um livro sobre ela e o intitulou “A Partícula Amaldiçoada”. Os editores do livro, entendendo que aquele não seria um título vendável, renomearam-no para “A Partícula de Deus”, e daí em diante o nome bóson de Higgs ganhou o eterno e divino apelido.
Recentemente a Real Academia Sueca de Ciências divulgou os ganhadores do Prêmio Nobel de Física 2013. Em função da comprovação da existência do bóson de Higgs pelo LHC em meados de 2012, foram laureados o belga François Englert e o britânico Peter Higgs. Ambos estão envolvidos na criação da teoria sobre as origens da massa, predizendo com quase 40 anos de antecedência, a existência do bóson de Higgs.
Embora a falta de aplicabilidade iminente dessa descoberta possa nos instigar a duvidar dos bilhões de dólares gastos, o fato é que a pesquisa teórica, da qual Albert Einstein é o maior exemplo, pode nos levar a caminhos infinitos do conhecimento. Lembremo-nos de que a Relatividade de Einstein nos possibilitou a criação de tecnologias como o laser e o GPS. E a própria Internet nasceu em berços acadêmicos antes de ganhar o grande público.
Esse é o divino mistério da ciência: não conseguimos afirmar com absoluta propriedade o que vamos descobrir amanhã, a não ser o fato de que se não pesquisarmos, não vamos descobrir mais nada. E, podem crer, a humanidade ainda tem muitas dúvidas a serem esclarecidas!

(Colaboração de Wagner Zaparoli, natural de Bebedouro, doutor em Ciências pela USP, mestre em Ciência da Computação, professor de lógica e consultor. E-mail: wzaparoli@gmail.com).

Publicado na edição nº 9614, dos dias 24 e 25 de outubro de 2013.