Festa da Primavera: a mobilização da sociedade em prol das entidades filantrópicas

José Pedro Toniosso

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Em uma das edições da Festa da Primavera, grandioso público presente na praça Barão do Rio Branco. Foto: Acervo do Departamento Municipal de Cultura.

“Grandes Festas da Primavera. Em benefício da Santa Casa e do Asylo S. Vicente de Paulo. A digna Câmara Municipal apoia as Festas da Primavera, associando-se à comissão patrocinadora.” Com este anúncio publicado na edição de 27 de setembro de 1936 da Gazeta de Bebedouro, os bebedourenses eram incentivados a participar e contribuir com a primeira edição desta Festa que se tornou uma tradição na cidade.

Sua origem está relacionada à solidariedade da sociedade diante da difícil situação financeira pela qual passava a Santa Casa de Misericórdia, considerando o balancete da entidade que fora publicado e que apontava um alto desequilíbrio entre receitas e despesas, o que ameaçava a continuidade do atendimento que era prestado.

Desta forma, por iniciativa de membros do Rotary Club local, teve início os preparativos para a organização de uma grandiosa “kermesse” para a arrecadação de recursos visando a liquidação das dívidas daquela instituição, além de contribuir com a finalização das obras das instalações do Asilo São Vicente de Paulo. Aos rotarianos, juntaram-se associados do Círculo Italiano, Associação Amigos de Bebedouro, Associação Atlética Internacional, Associação Comercial e Industrial e Associação dos Empregados no Comércio, Nosso Club e Sociedade Beneficente Operária.

A primeira “Festa da Primavera” ocorreu no período de 26 de setembro a 12 de outubro, na Praça Barão do Rio Branco. No local foram montadas duas barracas: a “Shirley Temple”, que comercializava produtos da Cervejaria Paulista, e a “Caravela Caridade”, que oferecia produtos da Cervejaria Antárctica. No Coreto localizado no centro da Praça, foram realizados inúmeros leilões, de prendas dos mais variados tipos, doados por empresas, famílias e cidadãos.

Em todos os dias, a Festa foi abrilhantada pela Banda Musical de Bebedouro, regida pelo maestro Salata. Foram realizados sorteios de tômbola, concurso da Rainha da Festa e outras atividades. Para as crianças foi organizado o “Rancho da Casuarina”, com animadas corridas de cavalos de pau.

Após a finalização, na divulgação do balancete foi apontada a receita de 51.689$600, ou seja, mais de cinquenta contos de réis, valor totalmente destinado às duas entidades filantrópicas. Em novembro do mesmo ano, a Câmara Municipal aprovou a oficialização da Festa, que passou a ser realizada anualmente e com os mesmos objetivos.

Na edição de 1937, além da Santa Casa e Asylo, os rendimentos foram direcionados também às entidades “Obreiros da Caridade” e “Cruzada Pró-Infância”, além do “Asilo-Colônia de Cocais”, voltado ao tratamento da hanseníase. Foram organizadas três barracas, “Primavera”, “Roseiral da Caridade” e “Sociedade União Brasileira” e como diversão, “João Mendangue”, “Víspora”, “Corrida da Gávea”, “Correio Elegante” e concurso de “Rainha da Primavera”, além dos tradicionais leilões no Coreto.

Na sequência, foram realizadas ininterruptamente, outras quatro edições da Festa, entre 1938 e 1941, sempre no período aproximado de vinte dias, entre os meses de setembro e outubro, na Praça Barão do Rio Branco, mantendo a estrutura das duas primeiras, mas sempre acrescentando alguma novidade entre as atrações. Em 1941, por exemplo, sob o patrocínio da “Companhia Nestlé”, foi realizado um inédito “Concurso de Robustez Infantil”, com a participação de muitas crianças entre 0 e 3 anos de idade.

Em 1942, a Festa foi interrompida em decorrência do contexto de crise, influenciado pela ocorrência da Segunda Guerra Mundial. Sendo assim, optou-se pela realização de eventos dispersos, sem suntuosidade, mas que viabilizassem a arrecadação de recursos para as entidades, como listas de subscrição, torneios esportivos, festas nos clubes e associações.

Somente em 1947, a “Festa da Primavera” voltou a acontecer, no período entre 11 e 26 de outubro e com significativa participação da sociedade, nas comissões e durante os festejos. No ano seguinte, ao que consta pela única vez, a Festa aconteceu na praça Valêncio de Barros, com a mesma organização das primeiras edições e em benefício da Casa da Criança e Asilo São Vicente de Paulo. A última edição ocorreu em 1949, tendo como novidade uma “Exposição Industrial”, onde empresas bebedourenses expuseram os seus produtos.

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 10.844, de sábado a terça-feira, 18 a 21 de maio de 2024