“Gymnásio Luso Brasileiro”: os primórdios da Escola Estadual Dr. Paraíso Cavalcanti

José Pedro Toniosso

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Publicada no Jornal de Bebedouro, s/d, e reproduzida no livro “Reminiscências de Bebedouro”, de Manoel Izidoro Filho, p. 163.

No início da década de 1920, o município de Bebedouro era atendido por diversas escolas de ensino elementar, com destaque para o Grupo Escolar, inaugurado em 1913, além das escolas reunidas na vila de Botafogo e as isoladas, da área urbana e rural, as quais somavam mais de 1.200 alunos matriculados, de ambos os sexos. Havia ainda, vários estabelecimentos particulares, como Escola Carlos Gomes, Colégio Stellita, Escola Fraternal e os Externatos, Bebedourense e Sete de Setembro, sendo que somente os dois últimos funcionavam com curso secundário, porém de forma provisória e com pequeno número de alunos.

Neste contexto foi criado o “Gymnasio Luso-Brasileiro”, com início das atividades letivas em 8 de maio de 1922, sob a direção do Prof. Augusto Pinto Vieira da Silva, que atendeu ao convite feito por dois cidadãos bebedourenses, Adriano Garrido e Antônio Gaspar Amado, ambos de origem portuguesa, que o visitaram na capital paulista, onde era vice-diretor do Ginásio Anglo-Latino.

Após ouvir a explanação dos visitantes sobre a necessidade e viabilidade da criação de uma escola em Bebedouro, Augusto Vieira comprometeu-se em analisar a proposta. Tempos depois, viajou para conhecer o local destinado à futura instituição, que seria inicialmente em uma casa localizada na rua Alfredo Ellis, n. 18, atual rua Oscar Werneck. As condições causaram boa impressão ao professor, que se mudou da capital para Bebedouro e deu encaminhamento às providências necessárias para a fundação do novo estabelecimento.

De acordo com o registro no livro de matrículas, o primeiro aluno inscrito foi Ramiro de Souza Lima, que posteriormente se tornaria um dos médicos mais conhecidos do município e região e que, coincidentemente, viria a construir sua casa exatamente no primeiro endereço em que a escola se instalou.

Em depoimento publicado em 1984, Dr. Ramiro assim se referiu à instituição em seus primeiros anos: “O Ginásio Luso-Brasileiro no seu início era bem modesto e tinha apenas três ou quatro classes. A cidade era pequena, poucos os alunos, parcos os recursos. Mas quanto entusiasmo despertou, quanto fruto deu! […] O Dr. Augusto (Vieira) lia uma história num livro chamado “Pérolas Esparsas”, comentando-a depois, tirando conclusões e ensinamentos morais. Era a melhor aula da semana. […] No final da aula, todos de pé, cantávamos os hinos do Brasil e de Portugal!”

Conforme anúncio publicado na imprensa da época e um relato do diretor do estabelecimento, Prof. Augusto Vieira, inicialmente a escola ofereceu os cursos de Jardim de Infância, Primário, Secundário Fundamental e Secundário Ginasial, voltado para a preparação e habilitação para o ensino superior. Porém, para isso era necessário que os alunos prestassem exames federais, o que exigia que se deslocassem para outras cidades, geralmente para Jaboticabal, Ribeirão Preto ou São Paulo.

No ano de sua fundação, o corpo docente do Gymnasio Luso-Brasileiro era formado pelos professores Augusto Pinto Vieira da Silva, Orlando França de Carvalho, João Nogueira de Sá (Juiz de Direito), José A. Marques Porto (Promotor Público), Eugênio Gomes de Mattos, Raul de Paiva Castro, Theodoro Montéra, Raymundo Ferreira de Aquino, Luiz de Angelis, Secundina Paschoal, Raul Ribeiro Florido, José Veríssimo Filho, entre outros.

Logo no primeiro ano de funcionamento, o Ginásio obteve franca aceitação por parte dos jovens e famílias de Bebedouro e região, o que gerou a expectativa de que fosse construído um prédio próprio para a escola, conforme expressou o diretor em artigo publicado em 4 de fevereiro de 1923:

“[…] Mas, porque (não) se constrói um prédio que seja mais largo campo para o meu trabalho, para o meu esforço em prol de vossos filhos? Um prédio que vos imponha a cidade e a cultura à consideração do Brasil? Um prédio que vos imortalize no futuro? Um prédio que venha a servir de centro para uma larga roda de outros prédios, de valorizações, de habitantes e de futuro?”

O ensejo pela construção de um prédio próprio logo se tornaria realidade, pois em novembro de 1924 a Municipalidade faria o lançamento da pedra fundamental de uma edificação que comportaria trezentos alunos, dando origem a uma nova escola: o Ginásio Municipal de Bebedouro, assunto que será abordado em outro artigo.

Publicado na edição 10.659, de sábado a terça-feira, de 9 a 12 de abril de 2022.