Uma estrela da aviação em Bebedouro: a visita de Ada Rogato em 1949

José Pedro Toniosso

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Ada Rogato, pioneira da aviação brasileira, esteve em Bebedouro em 1949, a convite do Aeroclube Bebedourense. Foto: https://aeromagazine.uol.com.br/artigo/primeiro-voo-agricola-feminino-do-brasil-completou-75-anos.html

No ano seguinte à sua fundação em maio de 1941, o Aeroclube Bebedourense obteve autorização para funcionamento expedida pelo Ministro da Aeronáutica, o que viabilizou a construção de um hangar no primeiro campo de pouso existente, localizado em área anexa ao Horto Florestal do Estado.

As primeiras atividades estiveram voltadas para a organização do movimento aéreo e para a formação de aeronautas, com a promoção de cursos de pilotagem civil que contaram com a participação de dezenas de interessados.

O Aeroclube também passou a promover diversos eventos voltados para a popularização da aviação, como a festa aviatória realizada em 1º de março de 1949, que incluiu no seu programa voos panorâmicos sobre a cidade realizados em diversas aeronaves, além de um salto de paraquedas muito especial.

O público que compareceu superou em muito as expectativas dos organizadores, pois uma verdadeira multidão se deslocou até o campo de pouso para acompanhar o inédito espetáculo, cerca de cinco mil pessoas conforme registrou a imprensa local.

Por ser um dia de carnaval, acreditava-se que a agitação dos festejos de momo iria inibir o interesse do público e com isso não se deu a atenção necessária quanto ao policiamento, disponibilidade de água, alimentos e transporte.

O prestígio dado ao evento não foi por acaso, pois era esperada presença muito especial: a pioneira na aviação brasileira, primeira mulher piloto de planador, primeira piloto agrícola, acrobata aérea e campeã de paraquedismo, Ada Rogato.

A aviadora impressionou os bebedourenses e o jornal A Vanguarda registrou: “Modesta, competente e entusiasta, ela soube, na sua simplicidade, catequizar o povo presente, que não regateou aplausos demorados ao seu grandioso feito”.

Comprovando sua experiência, a aviadora utilizou dois paraquedas para realizar as manobras, abrindo o segundo bem próximo do solo para amenizar a descida. Os saltos foram realizados em um aeroplano pertencente ao Aeroclube, pilotado pelo instrutor Júlio Ferreira do Carmo e entraram para a extensa lista de feitos notáveis daquela que é reconhecida como dos principais nomes da história aeronáutica brasileira.

 

Ada Rogato, aviadora notável

Filha de imigrantes italianos, nasceu em 1910 na cidade de São Paulo, quatro anos após o voo pioneiro de Santos Dumont com o 14 Bis. Após concluir o ensino primário, Ada cursou o secundário conforme o padrão das moças da época: estudou piano, bordado, pintura, desenho, ou seja, nada relacionado à aviação, algo então totalmente distante do mundo feminino. Já na década de 1930, com a fundação do Aeroclube de São Paulo, da Viação Aérea de São Paulo (VASP) e do Clube Paulista de Planadores, Ada expôs seu interesse crescente pelo mundo da aviação, principalmente após assistir as exibições de uma equipe da Força Aérea Alemã no Campo de Marte em São Paulo, especialmente da piloto Hanna Reitsch, recordista em distância e duração dos voos de planador tendo apenas 22 anos de idade.

Em 1935 teve início sua bem-sucedida carreira de aviadora, quando se tornou a primeira sul-americana a obter o brevê de piloto de planador e, no ano seguinte, a primeira mulher brevetada em avião pelo Aeroclube de São Paulo. Em pouco tempo se tornou a estrela de dezenas de shows aéreos por todo o país, que incluíam voos acrobáticos e saltos de paraquedas, como foi realizado em Bebedouro.

Entre as viagens de longo percurso, destaque para o raid Sul-Americano de 1950, que passou por Paraguai, Argentina, Chile e Uruguai, sendo a primeira brasileira a cruzar a Cordilheira dos Andes em um voo solitário de 116 horas. No ano seguinte, realizou circuito pelas três Américas, novamente em voo solitário que passou por quase todos os países do continente, até alcançar o Alaska, batendo recorde de maior distância percorrida em avião de pequeno porte.

No decorrer dos anos, Ada superou diversos desafios, o que fez com que fosse homenageada inúmeras vezes, por sua carreira marcada pelo pioneirismo, ousadia e profissionalismo. Sendo nome tão expressivo na aviação brasileira e mundial, sua vinda a Bebedouro pode ser considerada fato notável, que merece ser conhecido e ser registrado na história bebedourense.

 

(Colaboração de José Pedro Toniosso, professor e historiador bebedourense, www.bebedourohistoriaememoria.com.br).

Publicado na edição 11.023, sábado a sexta-feira, 1º a 7 de agosto de 2026 – Ano 102